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entrevista

John McCrea

Vocalista do quarteto californiano Cake

 

27.07.2006

 

Veja São Paulo — A primeira vez que o Cake tocou em São Paulo foi em 1999, no Free Jazz Festival. O que lembram da cidade?
John McCrea — Recordo-me de ter dividido o palco com Tom Zé. Ele tem talentos múltiplos: compositor, arranjador, produtor e performer de primeira linha. Quanto à música brasileira, confesso que não sou um profundo conhecedor, mas ouço com freqüência Astrud Gilberto, Baden Powell e Tom Jobim.

Divulgação

Cake: Nelson, McCurdy, McCrea e Di Fiore



Veja São Paulo —
O que acha dessa nova onda do rock inglês, a exemplo do som dos conjuntos Franz Ferdinand e The Killers?
John McCrea — São muitos bons, mas soam iguais, sem personalidade. Parece que há uma patota que se reúne até chegar num consenso: agora vamos tocar somente esse tipo de música. E todo mundo vai atrás sem pestanejar.

Veja São Paulo —
O Cake segue alguma tendência?
John McCrea — Há várias influências em nossas músicas, mas eu não diria que fazemos parte de algum movimento. Eu não gosto de bandas, eu gosto de músicas. Ouço de AC/DC a Johnny Cash.

Veja São Paulo —
Vocês já regravaram músicas de Gloria Gaynor (I Will Survive), do Oswaldo Farrés (Quizás, Quizás, que virou Perhaps, Perhaps) e do Bread (The Guitar Man). Há alguma outra canção presente nos shows mas que não está nos discos?
John McCrea — Fizemos experimentos com temas de Buck Owens, como Excuse Me (I Think I've Got A Heartache). Trata-se de uma lenda viva da música caipira americana. Vou contar uma coisa: nunca sei o que vou tocar até a hora de subir no palco. Escolhemos as músicas no decorrer do espetáculo. Soa muito mais natural.

Veja São Paulo —
O show do Cake será num hotel caríssimo, com ingressos que custam 120 e 300 reais. Não é estranho para um banda que ainda parece manter um espírito colegial tocar num lugar desses?
John McCrea — Realmente é esquisito, mas deve haver uma boa razão. De qualquer forma, peço desculpas às pessoas que não têm condições de ir. Eu não pagaria tudo isso para ver uma banda.

Veja São Paulo —
É verdade que você se preocupa com problemas ambientais, como a preservação da Amazônia?
John McCrea — Todos deveriam se preocupar, afinal necessitamos de ar para viver. Mas não me considero um defensor ferrenho, daqueles que rodam o mundo em prol dessas questões. Fazemos shows beneficentes e eu, particularmente, ajudo as organizações que acredito. Ademais, não quero que o Cake seja conhecido como "a banda que luta por um mundo mais justo." Meu trabalho é fazer música, e isso ocupa boa parte do meu tempo.

Veja São Paulo —
As faixas de seus cinco álbuns soam muito parecidas. Nunca tiveram vontade de mudar?
John McCrea — A idéia de que as coisas devem mudar é uma obrigação muito mais mercadológica do que artística. As pessoas sentem necessidade de consumir algo novo, inédito, e jogar fora o que gostavam no ano anterior. É como o mundo da moda: se a sua jaqueta de couro não tem o corte e a cor da estação, deixe-a de lado e compre outra.

Veja São Paulo —
Por falar em moda, você segue cultivando sua barba?
John McCrea — Sim. Mas não é porque pretendo ser fashion ou moderno, mas simplesmente porque tenho preguiça de me barbear.

Veja São Paulo —
A cidade onde você mora (Sacramento, na Califórnia) é considerada entediante. Isso ajuda ou atrapalha na hora de compor?
John McCrea — Não tem muito o que fazer por lá, e isso é perfeito. Se eu tivesse crescido em Los Angeles ou Nova York, com certeza haveria coisas muito mais interessantes do que ficar em casa escrevendo música.

 
 
 
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