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ARTES GRÁFICAS

Elifas Andreato

Autor de algumas das mais importantes capas de discos de MPB nas décadas de 70 e 80, artista paranaense fala ao Portal

 

Por Cristian Cancino

24.11.2006

 

Cristian Cancino

O artista diante da capa do LP O Canto das Lavadeiras (1989), de Martinho da Vila


Elifas Andreato tem tímpanos privilegiados. Para criar capas, contracapas e encartes de discos, ele ouve algumas das melhores criações da MPB antes de qualquer apreciador. Sua missão é, portanto, 
traduzir matéria sonora em representação visual.

Desde jovem, o artista compartilha com grandes músicos noites em botecos, jogos de futebol e amizades. Essa convivência ajuda no processo criativo. "Faço uma força danada pra acertar e geralmente acerto", diz.

Ele também faz cenários, cartões postais, capas de livros, ilustrações para revistas, cartazes de teatro. Parte dessa produção pode ser vista (até 12 de dezembro) na exposição Elifas, 60 anos: Imagens do Som, Contornos da História, no Design & Graphic Center, no Cambuci. "Essa região já concentrou o maior número de gráficas da América do Sul", explica.

Leia, a seguir, comentários do artista sobre alguns de seus trabalhos.


O começo

"Comecei com esse negócio de capas com a edição da História da Música Popular Brasileira, da Abril Cultural, na década de 70.  Foi a primeira experiência feita com disco e fascículo em banca. É importante frisar que aqueles velhinhos, Cartola, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues, Pixinguinha, estavam esquecidos na época. Então fomos atrás e acabei ficando amigo deles. Eu era cheio de pose, sentava no Jogral (bar que reunia artistas no centro de São Paulo) com o Lupicínio, todos olhavam para nós, era a glória. A repercussão que esse trabalho teve na música popular brasileira foi muito forte."

Adoniran Barbosa (1980)

Adoniran: "Sou esse palhaço triste"

"A capa do Adoniran é exemplar dos vacilos que cometi. Quando a fiz, o retrato interno era aquele palhaço triste. Mas um diretor da gravadora falou: 'Será que o Adoniran vai entender esse negócio de palhaço?' Então fiz outra versão, que era apenas um retrato. O desenho do palhaço triste dei para o Fernando Faro, produtor do LP. Um dia, o Faro me liga e diz que tinha um cara querendo falar comigo. Atendi e era o Adoniran. Ele disse: 'Sou esse palhaço triste aqui, não esse alemão que você colocou no disco!'

O palhaço é, para mim, o emblema do artista, porque ele tem que se entregar ao outro e provocar o riso a partir da dor."

Clementina de Jesus (1980)

"Fiz aquela capa da Clementina, que é uma marca de pé no barro. Cheguei à gravadora e me falaram a mesma coisa que falaram da capa do Adoniran: 'Xi, rapaz, ela não vai querer esse negócio, melhor fazer um retrato'. Disse que não faria e a capa saiu daquele jeito. Em seguida, o Hermínio Bello de Carvalho, que descobriu a Clementina, fez uma homenagem a ela na Funarte (Fundação Nacional de Artes). Sabe o que ela pediu de presente? Que eu fosse à Funarte gravar o pé dela no barro. Ela falava: 'Hermínio, a capa é linda, mas não é o meu pé'. Então tive de fazer um molde com o pé dela.

A idéia do pé na terra é porque ela, uma cantora extraordinária, representa a contribuição mais significativa nas raízes da música brasileira, que é o samba. O samba que nasce no terreiro, nas senzalas."

Chico Buarque - A Ópera do Malandro (1979)


"A música Homenagem ao Malandro me ajudou a ter a idéia de fazer, na capa, a figura do malandro deitado no banco do trem. Quando chegamos à gravadora, o cara do departamento comercial disse ao Chico que aquele disco não ia vender. 'Olha, não tem você na capa e além do mais teu nome está escrito com letra muito pequena.' O Chico olhou bem para ele e disse: 'O que a gente sabe é fazer discos, e esse está bem feito. Você é que vende, então pega isso e vende'. O cara queria a facilidade de colocar o Chico na capa, cara bonito, ídolo popular e aí não ter trabalho para vender. Por essa história dá para ver o tipo de parceiro que eu tenho. Aliás, não são parceiros, são cúmplices."


Martinho da Vila

Capa do LP Rosa do Povo (1976)

"No início da década de 70, a MPB tinha uma força danada. E era uma força que estava além da própria música, era uma força sócio-política. Quando fizemos a Semana de Arte Moderna, em 72, junto com os centros acadêmicos, quisemos fazer a contra-comemoração do aniversário da ditadura. Então organizamos um mês de atividades na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Eu me lembro que o Martinho da Vila havia estourado com a música O Pequeno Burguês. Naquela época Chico Buarque, Gil e Caetano estavam exilados e Geraldo Vandré tinha sido banido. Propus levar o Martinho ao evento. Os estudantes quase me lincharam porque ele era milico. Então, numa reunião com representantes dos centros acadêmicos fiz uma defesa dele. Disse que o samba era de protesto, de contestação.

O Martinho não foi sozinho para o palco. Levou a Velha Guarda da Vila Isabel e matou a pau. No final, a estudantada estava de pé. Dois dias depois eu estava em casa, na Pompéia, e a empregada, Dona Antônia, chegou e disse: 'Seu Elifas, tem um homem na porta que é igualzinho ao Martinho da Vila. Até a voz dele é igual!' Era o próprio. Foi me convidar para fazer a capa de seu próximo disco. Desde então, faço todas."

Velha Guarda da Portela

"Nesse evento aconteceu uma coisa muito interessante também. Foi a primeira vez que a Velha Guarda da Portela se apresentou. Eu inventei a Velha Guarda da Portela como espetáculo. Durante a apresentação, a Dona Vicentina, famosa pela música Pagode do Váva, distribuía seus quitutes para a estudantada. Na última temporada em São Paulo, no Teatro Fecap, o Paulinho da Viola contou essa história. A idéia de levar a Vicentina foi dele."

Paulinho da Viola - Nervos de aço (1973)

Capa ilustra separação de Paulinho e Isa

"Essa capa do Paulinho provoca comoção e ao mesmo tempo solidariedade. Tive o cuidado de desenhar ambos, o Paulo e a Isa. Eles estavam se separando na época e quis tornar isso público, já que o disco havia sido realizado naquele momento de sofrimento. Fomos à gravadora apresentar o projeto. A certa altura, ao ouvir um diretor comercial dizer que o disco não venderia com aquele desenho na capa, Paulinho disse: 'Bom, mas é a capa do meu disco.' Diretor nenhum poderia se opor. As vendas dobraram. 

Lembro de uma tarde em que fomos a um sebo. Um cara meio tímido estava rondando o Paulinho, parecia querer falar alguma coisa. O Paulinho, como é um anjo, facilitou. Chegou pro cara e disse: 'Oi, tudo bem?'. O cara se animou: 'Paulinho, sou teu fã, mas a capa desse disco, hein rapaz? Que maravilha. Fiquei pensando em teu sofrimento com mulher, essa coisa toda, mas, não liga não, a vida é assim mesmo.'"

A Morte de um Caixeiro Viajante (1977)
(espetáculo de Artur Miller com Paulo Autran, direção de Flávio Rangel)


"O desenho é aquela figura meio derrubada, sentada sobre malas, com aquele símbolo americano atrás, mostrando o próprio fracasso do sonho americano. Então cheguei para mostrar ao Paulo Autran, ator da peça, e ao Flávio Rangel, diretor. O Paulo disse: 'Mas eu não estou no cartaz!' O Flávio Rangel respondeu: 'Claro que está, é o teu personagem, é perfeito'. O Paulo ficou quieto e enviou o convite do espetáculo para o autor da peça, o Artur Miller, que mandou uma carta agradecendo o convite. No último parágrafo, dedicava a carta ao cartaz e não à peça. No mínimo ele achou que eu acertei, né? (risos)."

 

 

 
 
 
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