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Um sabor que se renova todos os dias
A Folha de São Paulo apostou em mudanças e juventude
e se tornou o jornal mais lido e interessante da cidade


Por Roberto Pompeu de Toledo

Um leitor mal-humorado pode encontrar vários motivos para brigar com o jornal Folha de S.Paulo. Num dia pode achar que as páginas são feias. No outro, que os artigos são chatos. Pode encontrar também notícias equivocadas e - suprema delícia para quem está interessado em garimpar defeitos - deparar com um cochilo editorial como o que ocorreu no dia 25 de agosto, um domingo. Nesse dia, um artigo do escritor argentino Jorge Luis Borges aparecia na primeira página da Folha Ilustrada. Quando se chegava ao suplemento Folhetim, lá estava de novo, sem tirar nem pôr, o mesma artigo, sugerindo uma vitória da descoordenação e da bagunça.

Sossegue, porém, mesmo esse leitor mal-humorado, e saiba de uma verdade a cada dia mais cristalina em São Paulo: pior do que ler a Folha é não a ler. Nesse caso se perde o jornal mais interessante da cidade. O mais nervoso. O que melhor cheira, no cipoal dos fatos do dia-a-dia, o que há de vital e provocante. "Tenho o hábito de tomar o café da manhã lendo a Folha", afirma a atriz Irene Ravache. "É um jornal mais livre que os demais", repica o compositor Arrigo Barnabé. Outro expoente da ala jovem da cidade, o "animador cultural" - como se define - Wilson José, um ex-seminarista que virou punk e hoje pilota a danceteria Madame Satã, decreta: "A Folha de S. Paulo é o único jornal moderno que temos no Brasil. Tão moderno quanto a Coca-Cola".

A Folha não é um jornal de personalidade definida como seu concorrente direto, O Estado de S. Paulo, de nítido perfil senhorial e auto-suficiente, além de anticomunista até a raiz dos cabelos. Também não prima por uma apresentação atraente e ordenada como a do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro. Tampouco exibe a força popular, ultimamente mesclada com a procura de um público mais qualificado, de O Globo, também do Rio. É muito fácil dizer o que a Folha não é. Mais difícil é precisar o que é, mas para isso talvez ajude a comparaçãoo com a Coca-Cola, feita por Wilson José. Aos 100 anos, e nem por isso menos "moderna", como quer Wilson, a Coca não baixa a guarda nem tem vergonha de tentar novos sabores. A Folha, aos 64 anos, está sempre a procura de um novo sabor, e nisso consegue a sua melhor marca - a do triunfo sobre a esclerose e o encarquilhamento.

"A Folha procura um jornalismo crítico, apartidário, moderno e pluralista", tem repetido, em seus pronunciamentos públicos e particulares, o diretor de redação do jornal, Otavio Frias Filho. Por trás de conceitos como "apartidário" e "pluralista" as pessoas que não gostam da Folha costumam ver outras coisas, mais feias, como falta de coragem para se definir e tomar partido. O público, porém, tem endossado a linha do jornal da forma mais eloqüente que poderia haver: os números. A Folha é hoje um jornal que bate O Estado, em circulação, por 250 851 exemplares a 204 671, nos dias de semana, segundo as medias apuradas nos últimos meses de maio e junho pelo Instituto de Verificação de Circulação, IVC. Mesmo nos domingos a Folha bate O Estado, algo inimaginável até alguns anos atrás - 400 792 a 392783, segundo o IVC do mesmo período.

As cifras provam que o jornal sediado na Rua Barão de Limeira, num prédio de um mau gosto condizente com a decadência daquela região da cidade e remendado par sucessivas ampliações, é o mais lido de São Paulo. O que as cifras não mostram, mas que é igualmente verdadeiro, é que a Folha é hoje também o jornal que mais se identifica com a São Paulo dos anos 80. Houve um tempo em que O Estado era percebido como o jornal de São Paulo por excelência - e São Paulo naquela época realmente tinha muito a ver com a altivez patrícia, as raízes ainda predominantemente rurais e a severidade de mestre-escola que recendiam das páginas do tradicional jornal da família Mesquita. Hoje a metrópole turbulenta e inquieta, que vota na oposição, está sempre aberta para as novos hábitos e as novas modas, e se unifica na diversidade, está mais para as páginas da Folha de S. Paulo, da seção Painel, na página 4 - em que o jornalista Boris Casoy, ex-diretor de redação, junta em notas curtas as fofocas do meio político -, às indicações de artes e espetáculos da Folha Ilustrada, a Folha de S. Paulo reflete de maneira mais viva e aguda o que está acontecendo ou está para acontecer na cidade.

Tudo que acontece hoje com a Folha, em termos editoriais e empresariais, fica mais claro quando se enfoca uma estirpe de pai e filho que domina o jornal e, até mesmo em função da dinâmica de seu relacionamento, tem ajudado a moldar o seu rosto. O pai é Otavio Frias de Oliveira, de 73 anos, um empresário que começou do nada, fez fortuna em incorporações e empreendimentos como a antiga Estação Rodoviária de São Paulo e hoje é dono de um império que inclui mesmo uma granja de criação de galinhas. Com seu sócio de sempre, Carlos Caldeira Filho, Frias comprou, em agosto de 1962, a Empresa Folha da Manha S.A. - e seu jeito de empreendedor ambicioso mas prudente, econômico e pouco vaidoso, em comparação com outros donos de jornal, explica muito da saúde financeira de sua empresa. A Folha é um jornal sem dividas e que se orgulha de não buscar dinheiro em bancos.

O filho é Otavio Frias Filho, "Otavinho" para os mais próximos, o filho do dono que, desde abril do ano passado, é diretor de redação. Otavinho tem 27 anos, e só sua idade já diz muito do que a Folha tem se tornado ultimamente: um jornal inquieto, perturbador, jovem. Um inimigo da Folha trocaria os adjetivos para dizer que, em vez de perturbador, o jornal dá muitas vezes a impressão de perturbado e que, paralelamente à sua juventude, dá sinais de imaturidade – mas isso não importa. Importa é que entre acertos e erros, a Folha tem atingido em cheio a cabeça ou o coração do leitor. Na coluna dos acertos está, por exemplo, sua sensibilidade para ter-se sintonizado muito cedo com o grande desejo nacional pelas eleições diretas- o que fez com que se tornasse o primeiro jornal do país a aderir à campanha e se transformasse numa espécie de sua porta-bandeira.

Outro acerto- este dirigido mais à cabeça do que ao coração – foi a correção com que a Folha enfocou a longa agonia do presidente Tancredo Neves. Esse foi um momento que flagrou seu concorrente, O Estado, envolvido num fútil exercício de otimismo, como se a saúde de Tancredo pudesse ser recuperada pelas manchetes. Em contraste, a Folha manteve a cabeça fria e o olho atento nos fatos. O resultado, além de um furo nacional da Folha – o de que Tancredo teve um tumor, e não uma diverticulite, como origem de seus males -, foi uma sucessão de manchetes que, hoje, representam pontos positivos para o jornal e um colar de erros para o seu concorrente:

Folha – "O pós-operatório de Tancredo complica-se"; Estado – "Tancredo já anda e supera a crise" (manchetes do dia 20/3/85);
Folha - "Tancredo se deixa fotografar; alta e posse sem definição"; Estado – "Tancredo pode tomar posse na sexta" (dia 26/3);
Folha – "Infecção hospitalar ameaça a recuperação de Tancredo"; Estado –" Médicos controlam estado de Tancredo" (28/3);
Folha – "Febre de Tancredo volta e preocupa"; Estado – "Sopa de legumes, primeira refeição" (30/3).



"Hoje sinto um grupo grande, de umas trinta pessoas, se formando à minha volta e se identificando com o projeto do jornal", diz Otavio Frias Filho. Nesse grupo, os cabeças são os dois secretários de redação - Caio Túlio Costa, de 30 anos, e Carlos Eduardo Lins da Silva, de 33 – e o coordenador da Agência Folhas, Dácio Nitrini, de 33, o homem encarregado de chefiar os repórteres. Esses três, mais Otavinho, formam a direção da redação. Abaixo deles vêm os editores, como são chamados na imprensa os chefes das diferentes seções de uma publicação, e mesmo nesse grupo se mantêm as características de idades que às vezes não chegam aos 30 anos e carreiras meteóricas. São os quadros jovens que, sob Otavio Frias Filho, estão hoje no poder na Folha.

Essa juventude tem sido motivo de ironia e de ciumeira por parte dos repórteres e redatores mais velhos. "Os Menudos" é um dos apelidos que a equipe no comando recebeu dos colegas. Outro é "Gremlins". E até já se cunhou um ditado para espicaçar os jovens chefes. "Na Folha não se confia em ninguém com mais de 30", dizem os mais velhos. "Nem com mais de 30 anos nem com mais de 30 de QI." Pode ser mesmo que Os Menudos sejam responsáveis por muitas das bobagens que saem no jornal e outras tantas que acabam não saindo, confinadas à política e à orientação internas. Uma coisa eles têm a exibir, porém - um sentido de autocrítica não muito comum entre jornalistas, seres em geral sujeitos ao pecado da soberba e à fraqueza de considerarem que a publicação que fazem é sempre a melhor da praça. "A Folha tem falhas, principalmente no que se refere à informação", diz Caio Túlio Costa, um dos secretários de redação. O outro, Carlos Eduardo Lins da Silva, completa: "É inadmissível a turbulência que vem sendo observada na qualidade das edições".

 
 

Caio Túlio Costa e Carlos Eduardo Lins da Silva são dois nomes que numa lista de dez, na qual figurassem assinaturas como as de Paulo Francis ou Joelmir Beting, o leitor da Folha certamente cravaria como os menos familiares e os que menos têm a ver com as influências que recebe diariamente do jornal. Cuidado, leitor incauto: a cada café da manhã, diante do exemplar de cada dia, o que de mais fundo se está recebendo são as marcas desses dois. São eles que, no dia-a-dia, decidem em última instância que espaço terá cada seção do jornal, que assuntos merecem mais destaque e quais são aqueles que vão figurar na primeira página. Com isso vão plasmando um mundo que, ao chegar ao leitor, terá a forma que eles lhe quiseram dar.

"Aqui na Folha as decisões são coletivas", diz Caio Túlio. "'Nunca é só da minha cabeça, ou da de algum outro, que saem as coisas." Em parte a declaração reflete a realidade – de fato, as decisões na Folha são mais colegiadas do que em outros jornais -, mas em parte é modéstia de Caio Túlio, um mineiro de Alfenas criado no interior de São Paulo cujo primeiro emprego foi no jornal O Imparcial, de Tupi Paulista. Cabe geralmente a Caio Túlio escrever a manchete do jornal. Será dele, portanto, a linha com que o leitor primeiro deparará, na porta de casa ou na banca de jornais, a cada manhã. Outro de seus poderes é o de fazer ou desfazer estrelas que o público mais conhece – os colunistas ou os repórteres que costumam assinar suas reportagens. Há três anos, Caio Túlio telefonou para Silvio Lancellotti, até então um jornalista mais conhecido por suas críticas de música e suas incursões no campo cultural em geral, e lhe fez uma proposta: escrever uma coluna gastronômica. Nasceu então um espaço que é uma das ligações mais diretas da Folha com a cidade: uma coluna que tem, como especificidade diante das concorrentes, a característica de não apenas se deter na descrição e na apreciação dos pratos, mas também de contar a história dos restaurantes e falar de seus donos.

A forma como surgiu a coluna de Lancellotti ilustra um bom hábito existente na Folha: o de tentar perceber sempre o que estão querendo as leitores. Na época responsável por uma seção chamada Transa Cultural, publicada na Folha Ilustrada, Lancellotti certo dia escreveu um artigo sobre a história das pizzarias da cidade- mas, como não era hábito do jornal fornecer um serviço direto ao leitor, não publicou nenhum endereço. No dia seguinte choveram telefonemas de pessoas que queriam saber onde ficavam as pizzarias citadas. Caio Túlio sentiu que havia aí campo para avançar e instituiu a coluna regular de gastronomia.

Caio Túlio e Carlos Eduardo dividem suas tarefas de forma que um, Carlos Eduardo, fica mais encarregado das decisões preparatórias de cada edição e outro, Caio Túlio, cuida do que na imprensa se chama "fechamento"- a hora de efetivamente cuidar da edição e da forma final dos assuntos. Há uma outra divisão, segundo a qual Carlos Eduardo, um professor de comunicações com livros publicados (recentemente ele publicou um trabalho sobre o Jornal Nacional, da Rede Globo) e inclinações teóricas, tem certas preocupações permanentes do jornal. Carlos Eduardo elabora todo mês, por exemplo, um relatório sobre o "desempenho da redação" em que faz um minucioso levantamento do comportamento do jornal em face das diretrizes fixadas por sua direção.

Tomar conhecimento de um desses relatórios é ter acesso aos rumos mais gerais que a Folha tem perseguido. Fica-se sabendo, por exemplo, que um dos objetivos do jornal é publicar mais fotos, mapas e gráficos, dentro do plano de reforçar "a informação em seu aspecto visual". No relatório de julho, Carlos Eduardo notava que tinha havido progressos nesse sentido - haviam sido publicados 598 gráficos durante o mês, contra 358 no mês anterior, e 85 mapas, contra 62. Quanto às fotos, a média diária, em julho, foi de 48,4 contra 47,6 em junho - um avanço, notou Carlos Eduardo, "embora não no nível desejado". Há inquietação e vontade de aeertar na Folha – este é o ponto. E para entender o que ocorre no jornal é útil voltar à dupla formada por pai e filho. Eles são importantes, nessa história toda, não só pela razão óbvia de se constituírem, respectivamente, no dono do jornal e sem eu herdeiro. Mais esclarecedora se torna a questão quando se abandona um e outro, individualmente, e se fixa no que há no meio deles - ou seja, no relacionamento entre ambos. Pode-se dizer que aí está a chave que faz a Folha funcionar com a dinâmica com que funciona hoje.

Nos primórdios da administração Frias, a Folha de S. Paulo não podia nem mesmo ser chamada de "saco de gatos" – rótulo a ela pespegado nos últimos anos por seus inimigos, de olho na diversidade de opiniões e personalidades que desfilam em suas páginas. Mais apropriadamente, o jornal era um saco de farinha. Chutava-se de lá e de cá, e ele ia se conformando à forma dos diversos pontapés. Havia máquinas de escrever, mesas, rotativas, caminhões e até jornalistas no prédio da Rua Barão de Limeira, mas dizer que dali saía um jornal era ser generoso. O que saía era uma coisa impressa que mal se agüentava num distante segundo lugar em São Paulo e que escasso respeito merecia dos leitores, para não dizer de si própria.

Esse panorama começou a mudar num dia de 1974 em que o velho Frias desembarcou em Nova York para uma conversa com Cláudio Abramo, um dos mais respeitados e experientes jornalistas de São Paulo. Na Folha desde 1965, depois de ter sido durante dez anos o todo-poderoso secretário de redação de O Estado de S. Paulo, Abramo cumpria na empresa de Frias, como cumpre até hoje, uma acidentada trajetória que alternava períodos de força total com os de ostracismo. Naquele dia de 1974 ele estava numa fase de ostracismo e aproveitava o tempo livre resultante do afastamento da direção do jornal para um curso nos Estados Unidos. Frias foi buscá-lo ali para propor-lhe que formulasse um plano para o jornal e que, de posse dele, voltasse à sua direção.

Detalhe importante: a essa reunião esteve presente também Otavinho, que foi quem instigou o pai e Cláudio Abramo a se encontrarem. Desse encontro resultou um momento capital na história recente da Folha: a abertura de suas páginas, no ano seguinte, para colaboradores de fora, principalmente da vida acadêmica, e, entre esses, certos nomes amaldiçoados pelo regime militar. Em parte essa estratégia foi adotada porque era a mais barata e mais viável. "O jornal não tinha meios para grandes coisas", diz Abramo. Em outra parte, deveu-se à intuição de que naquele momento de aurora da abertura - ou de distensão, como se dizia naqueles anos Geisel - abria-se um sinal verde e que fazia bom negócio quem avançasse. O fato é que, com sua reformulação, a Folha começou a ganhar o artigo que até então mais lhe fizera falta: respeitabilidade.

Nesse mesmo ano de 1975, e dentro da mesma estratégia traçada por Cláudio Abramo, se deu outro fato relevante, para o bem e para o mal, na vida do jornal- a contratação do comentarista Paulo Francis, com a missão de correspondente em Nova York. Por ora, porém, atente-se apenas para a circunstância de o velho Frias ter começado a dar força a qualidade de seu produto jornalístico exatamente quando o filho começava a ensaiar sua entrada na idade adulta. Talvez isso seja mais do que coincidência. Pode-se arriscar a hipótese de que o pai se tenha sentido duplamente motivado a tocar em frente e dar nova consistência a seu empreendimento ao deparar com um filho que saia da adolescência com alguma queda e muita gana pelo negócio.

Vê-se no rosto de Otavinho que se trata de um intelectual. De físico franzino e óculos de aro fino, ele serviria à perfeição a um caricaturista que quisesse criar um personagem que vive entre os livros. E ele vive entre livros. Solteiro, não têm outra vida além do jornal e dos estudos - sua paixão acadêmica chega ao ponto de demonstrar enfado pela balbúrdia de fatos nem sempre relevantes que constituem a vida jornalística. "Eu nunca quis ser diretor de redação", diz. "Minhas vaidades não estão aí." Ele diz que quer seguir a vida acadêmica - formada em Direito, ocupa-se agora de uma tese em Ciências Sociais, sob a orientação da antropóloga Ruth Cardoso, mulher do senador Fernando Henrique Cardoso. O estilo ascético e fortemente normativo que Otavinho imprime ao seu cargo de diretor de redação é ilustrado pelos dois únicos volumes que se encontram em sua sala na Folha de S. Paulo: a Constituição do Brasil e o Manual Geral da Redação, um volume em que fez enfeixar uma série de regras, variando do português à conduta editorial, que deve servir de orientação para os jornalistas da Folha de S. Paulo.

A relação entre o pai empresário, com fama de pão-duro e administrador de pés no chão, e o filho intelectual não poderia ser de maior respeito e carinho, segundo testemunhas próximas da família. "Eu diria até que é uma relação fora de moda", diz uma dessas testemunhas. Pai e filho se beijam, ao se cumprimentar. O pai ouve com atenção - , endossa sem restrições - as teorizações em que o filho baseia sua maneira de dirigir a redação. Em troca, Otavinho, criado em reuniões de jornalistas e conversas sobre linhas editoriais ou os destinos do país, tem para com o pai atenções como a menção que fez durante um discurso perante os colaboradores da Folha, em 1981. "De meu pai aprendi o pouco que sei", disse.

Um terceiro membro da família está agora chegando à direção da empresa: Luiz Frias, de 22 anos, o irmão mais novo de Otavinho, feito diretor comercial em novembro de 1982. Na verdade, a família Frias faz por merecer um bom espaço numa reportagem sobre a Folha, exatamente porque nessas ocasiões se procura mostrar o outro lado, menos conhecido, do jornal. Seu próprio estilo, porém, não é o de aparecer muito, ou pelo menos é o de aparecer muito menos e impor muito menos a sua personalidade às suas publicações do que outros donos de jornal. Eles dão espaço para que outros brilhem - e é por isso que na Folha brilham tantas estrelas, falsas ou verdadeiras.

Em primeiro lugar brilha Paulo Francis nas páginas da Folha, contemplado repetidamente com o primeiro lugar nas pesquisas internas que o jornal realiza sobre o índice de leitura de seus articulistas. Autor de 700 textos por ano, que produz diretamente no telex instalado em seu apartamento de Nova York, Francis trouxe à Folha o tom de polêmica inerente ao seu estilo de jornalismo corpo a corpo e um jeito pessoal do qual o leitor dificilmente escapa - para admirá-lo ou ficar com raiva. Azar do jornal é que, na esteira da marca Paulo Francis, se formou uma legião de imitadores que já chateariam pelo simples fato de serem imitadores, e chateiam muito mais quando se percebe que não estão tão equipados como o original. Talvez seja a eles que se refere o sociólogo Gabriel Cohn ao afirmar, especialmente sobre a Folha Ilustrada: "Lá existe um pessoal embevecido de si próprio que não dá para agüentar" .

A Folha Ilustrada é um capítulo à parte em qualquer consideração sobre a Folha de S. Paulo - um espaço aberto à aventura que lembram as tradições da imprensa alternativa das décadas de 60 e 70. A heterodoxia começa pela parte gráfica, mais solta e cheia de invenções que as outras partes do jornal. E termina no conteúdo dos textos, em que os autores têm licença para o exercício do personalismo e da iconoclastia. Aberta, par suas próprias características, para o florescimento dos melhores e dos piores talentos do jornal, a Ilustrada já serviu de abrigo, por exemplo, para o próprio Caio Túlio Costa, galgado da posição de seu editor para a secretaria do jornal. Hoje quem ali reina é Matinas Suzuki Júnior, de 30 anos - um dos expoentes da ala jovem que ocupa o poder na Folha. "A Ilustrada tenta intervir na discussão", diz Matinas. "Nosso negócio é lançar nomes e modas." Como editor do caderno mais polêmico do jornal, Matinas procura conciliar o que chama de "sobra da imprensa alternativa" com os interesses do grande público. "São Paulo está formando uma vanguarda cultural do país", acredita ele. Com isso em vista, a Ilustrada procura se dirigir sobretudo aos jovens e, já que se fala em jovens e em vanguarda cultural, a ordem é avanç;ar. "Aprontar um pouco faz parte do projeto", conta Matinas. "É um risco calculado."

Se fazer jornalismo polêmico, uma das normas da Folha Ilustrada, e criar confusão, pode-se assegurar que o crítico Pepe Escobar, registrado Petrônio Flávio Escobar França de Andrade, de 31 anos, especializado em cantores de rock, autores underground e filmes mais subterrâneos ainda, é um campeão. Escobar já foi acusado de plágio, comprovadamente, nas próprias páginas da Folha Ilustrada, e por um próprio companheiro de jornal - o hoje editor de política André Vitor Singer. Singer percebeu que um artigo do crítico, sobre o cantor inglês David Bowie, publicado em 1983, era na verdade copiado de um livro. Em outra ocasião, entre todos os adversários possíveis, Escobar foi se meter com ninguém menos do que os Gaviões da Fiel - o aguerrido agrupamento de torcedores do Corinthians. Isso ocorreu quando o crítico foi escalado para cobrir um jogo de futebol e analisar o comportamento da torcida. Provavelmente os interessados nem entenderam bem o que ele quis dizer, mas farejaram algo de mau num título – "Uma temporada no inferno nas asas dos gaviões". A decisão imediata, por parte de três dos gaviões, foi ir À redação da Folha tomar satisfações. Resultado: Escobar teve de ser retirado da redação sob escolta e ameaças de morte.

 
 

Espantoso é que um espírito como o de Pepe Escobar conviva, nas mesmas páginas da Ilustrada, com o veterano Tavares de Miranda, um cronista social do velho estilo, autor de notas como "Maria Helena Cardoso de Almeida Amorim convidando para o jogo de tranca no Harmonia, em benefício da APAE" e de seções como Na Ronda dos Nats, em que registra os aniversários do dia. Na verdade, porém, o espanto fica mais por conta do leitor. Entre os próprios jornalistas a convivência e perfeitamente pacífica - e exemplo disso e a maneira com que se tratam Tavares e o outro colunista da página 2 da Ilustrada, Ruy Castro. Desde julho responsável pela freqüentada seção de notas curtas que antes atendia pelo nome pernóstico de Estilo e Prazer, Ruy Castro costuma bradar a Tavares, quando chega à redação: "Poeta José, como vai?" José Tavares de Miranda responde: "O que ha de novo?" E Ruy Castro completa: "Muita galinha e pouco ovo". Quanto às diferentes especialidades de sua própria coluna e a do cronista social, Ruy Castro explica: "Eu fico com a alta cultura, e ele com a alta costura".

A Folha continua a investir num elenco de colunistas que se expande mesmo para fora da Ilustrada e inclui nomes como o de Joelmir Beting, um especialista em economia que das páginas do jornal decolou para a celebridade na TV. Mas atenção, navegantes: por mais que ainda brilhem as colunas e os nomes antigos ou novos, fazer jornalismo de estrelas - antiga marca registrada da casa - não é mais uma prioridade da Folha. Antes do que a opinião do seu quadro de funcionários ou colaboradores, o jornal agora dá ênfase à melhora da qualidade de sua informação, motivo de infindáveis pregações em reuniões e em documentos internos. "A Folha agora está investindo na informação", diz Otavio Frias Filho. Quando menos, essa é uma linha que se impõe até pelos tempos que o país esta vivendo. "O que mudou com a resistência ao autoritarismo", lembra Carlos Eduardo Lins da Silva. "A Folha cresceu com a abertura e com a coragem de receber gente maldita pelo regime." Agora, segundo nota o próprio Carlos Eduardo, não há mais autoritarismo contra o qual se rebelar, e por isso mesmo o jornal deve se impor pela pura qualidade de sua informação. "Aquele charme antigo não existe mais", diz ele. "O jornal, nesse aspecto, perdeu seu diferencial."

Trata-se de uma batalha que, para o bem do leitor, tem dado bons resultados. Na semana em que foi anunciada a taxa recordista de inflação de agosto, de 14%, a Folha conseguiu dar a notícia com um dia de antecipação com relação ao anúncio oficial, num furo nacional. A justa luta pela informação pode evitar também equívocos como o ocorrido no dia 16 de novembro do ano passado, quando a Folha deixou de dar, em sua primeira página, o mais importante discurso pronunciado par Tancredo Neves durante a campanha eleitoral daquele em que ele lançava o conceito de "Nova República". O jornal, perigosamente inclinado para a adoração do próprio umbigo, preferiu publicar, naquele dia, a repercussão de um delirante editorial publicado no dia anterior, em que pedia a renúncia de Tancredo e a imediata realização de eleições diretas.

 
 

A reboque da melhora do jornal a Folha, em cujos quadros trabalham 162 jornalistas, mais 189 repórteres lotados na Agência Folhas, tem aprimorado seu departamento comercial, sob o comando de Luiz Frias - o mais jovem dos membros do clã. Lançado em março de 1982, o caderno de imóveis do jornal - o Classifolha Imóveis - conseguiu se diferenciar desde logo pela maneira ordenada com que expunha os classificados, divididos por bairros, e pelos anúncios coloridos. Hoje, segundo Luiz Frias, o Classifolha Imóveis tem conseguido estrondosos sucessos. "Conseguimos fazer crescer o espaço de nossos classificados mais de 1 000%, do primeiro para o segundo trimestre de 1985", diz ele.

Recentemente, Cláudio Abramo, hoje um articulista político da Folha, entrou na redação do jornal, onde agora os terminais de computador substituem as máquinas de escrever, e disparou, com sua aguda ironia: "Eu já não posso ser jornalista. Ainda escrevo na máquina de escrever, sei português e tenho raciocínio lógico". Quando é levado ao mau humor pelos erros pequenos e grandes do jornal, o leitor pode ter o consolo de que pelo menos alguém zela por ele, alguém como o santo padroeiro Abramo, cultor de virtudes elementares. Impossível deixar de reconhecer, porém, que alguma eletricidade há no jeito de pessoas como Matinas Suzuki Jr., o jovem editor da Ilustrada. Sempre de olho no seu terminal, de onde controla os textos em sua viagem instantânea até as oficinas, Matinas responde com uma expressão de beatitude quando lhe perguntam se gosta do que faz. "Eu adoro", afirma.