Roteiros de
Veja São Paulo Acesse pelo seu celular mais de 1.000
endereços de restaurantes, bares e comidinhas e as opções
de programação dos cinemas e teatros da cidade.
Um sabor que se renova todos os dias A Folha de São Paulo
apostou em mudanças e juventude
e se tornou o jornal mais lido e interessante da cidade
Por Roberto Pompeu de Toledo
Otavinho Frias, 27 anos,
diretor de redação
Um leitor mal-humorado pode encontrar vários motivos para brigar
com o jornal Folha de S.Paulo. Num dia pode achar que as páginas
são feias. No outro, que os artigos são chatos. Pode
encontrar também notícias equivocadas e - suprema delícia
para quem está interessado em garimpar defeitos - deparar com
um cochilo editorial como o que ocorreu no dia 25 de agosto, um domingo.
Nesse dia, um artigo do escritor argentino Jorge Luis Borges aparecia
na primeira página da Folha Ilustrada. Quando se chegava
ao suplemento Folhetim, lá estava de novo, sem tirar nem pôr,
o mesma artigo, sugerindo uma vitória da descoordenação
e da bagunça.
Sossegue, porém, mesmo esse leitor mal-humorado, e saiba de
uma verdade a cada dia mais cristalina em São Paulo: pior do
que ler a Folha é não a ler. Nesse caso se perde
o jornal mais interessante da cidade. O mais nervoso. O que melhor
cheira, no cipoal dos fatos do dia-a-dia, o que há de vital
e provocante. "Tenho o hábito de tomar o café da
manhã lendo a Folha", afirma a atriz Irene Ravache.
"É um jornal mais livre que os demais", repica o
compositor Arrigo Barnabé. Outro expoente da ala jovem da cidade,
o "animador cultural" - como se define - Wilson José,
um ex-seminarista que virou punk e hoje pilota a danceteria Madame
Satã, decreta: "A Folha de S. Paulo é o
único jornal moderno que temos no Brasil. Tão moderno
quanto a Coca-Cola".
A Folha não é um jornal de personalidade definida
como seu concorrente direto, O Estado de S. Paulo, de nítido
perfil senhorial e auto-suficiente, além de anticomunista até
a raiz dos cabelos. Também não prima por uma apresentação
atraente e ordenada como a do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro.
Tampouco exibe a força popular, ultimamente mesclada com a
procura de um público mais qualificado, de O Globo,
também do Rio. É muito fácil dizer o que a Folha
não é. Mais difícil é precisar o que é,
mas para isso talvez ajude a comparaçãoo com a Coca-Cola,
feita por Wilson José. Aos 100 anos, e nem por isso menos "moderna",
como quer Wilson, a Coca não baixa a guarda nem tem vergonha
de tentar novos sabores. A Folha, aos 64 anos, está
sempre a procura de um novo sabor, e nisso consegue a sua melhor marca
- a do triunfo sobre a esclerose e o encarquilhamento.
As cópias da Folha deixam a rotativa
durante a madrugada: perde-se muito mais por não
se lê-la
"A Folha procura um jornalismo crítico, apartidário,
moderno e pluralista", tem repetido, em seus pronunciamentos
públicos e particulares, o diretor de redação
do jornal, Otavio Frias Filho. Por trás de conceitos como "apartidário"
e "pluralista" as pessoas que não gostam da Folha
costumam ver outras coisas, mais feias, como falta de coragem
para se definir e tomar partido. O público, porém, tem
endossado a linha do jornal da forma mais eloqüente que poderia
haver: os números. A Folha é hoje um jornal que
bate O Estado, em circulação, por 250 851 exemplares
a 204 671, nos dias de semana, segundo as medias apuradas nos últimos
meses de maio e junho pelo Instituto de Verificação
de Circulação, IVC. Mesmo nos domingos a Folha
bate O Estado, algo inimaginável até alguns anos
atrás - 400 792 a 392783, segundo o IVC do mesmo período.
As cifras provam que o jornal sediado na Rua Barão de Limeira,
num prédio de um mau gosto condizente com a decadência
daquela região da cidade e remendado par sucessivas ampliações,
é o mais lido de São Paulo. O que as cifras não
mostram, mas que é igualmente verdadeiro, é que a Folha
é hoje também o jornal que mais se identifica com a
São Paulo dos anos 80. Houve um tempo em que O Estado
era percebido como o jornal de São Paulo por excelência
- e São Paulo naquela época realmente tinha muito a
ver com a altivez patrícia, as raízes ainda predominantemente
rurais e a severidade de mestre-escola que recendiam das páginas
do tradicional jornal da família Mesquita. Hoje a metrópole
turbulenta e inquieta, que vota na oposição, está
sempre aberta para as novos hábitos e as novas modas, e se
unifica na diversidade, está mais para as páginas da
Folha de S. Paulo, da seção Painel, na página
4 - em que o jornalista Boris Casoy, ex-diretor de redação,
junta em notas curtas as fofocas do meio político -, às
indicações de artes e espetáculos da Folha
Ilustrada, a Folha de S. Paulo reflete de maneira mais
viva e aguda o que está acontecendo ou está para acontecer
na cidade.
Tudo que acontece hoje com a Folha, em termos editoriais e
empresariais, fica mais claro quando se enfoca uma estirpe de pai
e filho que domina o jornal e, até mesmo em função
da dinâmica de seu relacionamento, tem ajudado a moldar o seu
rosto. O pai é Otavio Frias de Oliveira, de 73 anos, um empresário
que começou do nada, fez fortuna em incorporações
e empreendimentos como a antiga Estação Rodoviária
de São Paulo e hoje é dono de um império que
inclui mesmo uma granja de criação de galinhas. Com
seu sócio de sempre, Carlos Caldeira Filho, Frias comprou,
em agosto de 1962, a Empresa Folha da Manha S.A. - e seu jeito de
empreendedor ambicioso mas prudente, econômico e pouco vaidoso,
em comparação com outros donos de jornal, explica muito
da saúde financeira de sua empresa. A Folha é
um jornal sem dividas e que se orgulha de não buscar dinheiro
em bancos.
Carlos Eduardo: "Turbulência inadimissível
ma qualidade das edições"
O filho é Otavio Frias Filho, "Otavinho" para os
mais próximos, o filho do dono que, desde abril do ano passado,
é diretor de redação. Otavinho tem 27 anos, e
só sua idade já diz muito do que a Folha tem
se tornado ultimamente: um jornal inquieto, perturbador, jovem. Um
inimigo da Folha trocaria os adjetivos para dizer que, em vez
de perturbador, o jornal dá muitas vezes a impressão
de perturbado e que, paralelamente à sua juventude, dá
sinais de imaturidade mas isso não importa. Importa
é que entre acertos e erros, a Folha tem atingido em
cheio a cabeça ou o coração do leitor. Na coluna
dos acertos está, por exemplo, sua sensibilidade para ter-se
sintonizado muito cedo com o grande desejo nacional pelas eleições
diretas- o que fez com que se tornasse o primeiro jornal do país
a aderir à campanha e se transformasse numa espécie
de sua porta-bandeira.
Outro acerto- este dirigido mais à cabeça do que ao
coração foi a correção com que
a Folha enfocou a longa agonia do presidente Tancredo Neves. Esse
foi um momento que flagrou seu concorrente, O Estado, envolvido
num fútil exercício de otimismo, como se a saúde
de Tancredo pudesse ser recuperada pelas manchetes. Em contraste,
a Folha manteve a cabeça fria e o olho atento nos fatos.
O resultado, além de um furo nacional da Folha
o de que Tancredo teve um tumor, e não uma diverticulite, como
origem de seus males -, foi uma sucessão de manchetes que,
hoje, representam pontos positivos para o jornal e um colar de erros
para o seu concorrente:
Folha "O pós-operatório
de Tancredo complica-se"; Estado "Tancredo já
anda e supera a crise" (manchetes do dia 20/3/85);
Folha - "Tancredo se deixa fotografar; alta e posse sem definição";
Estado "Tancredo pode tomar posse na sexta" (dia
26/3);
Folha "Infecção hospitalar ameaça
a recuperação de Tancredo"; Estado "
Médicos controlam estado de Tancredo" (28/3);
Folha "Febre de Tancredo volta e preocupa"; Estado
"Sopa de legumes, primeira refeição"
(30/3).
Caio Túlio: "A Folha tem falhas, principalmente
no que se refere à informação"
"Hoje sinto um grupo grande, de umas trinta pessoas, se formando
à minha volta e se identificando com o projeto do jornal",
diz Otavio Frias Filho. Nesse grupo, os cabeças são
os dois secretários de redação - Caio Túlio
Costa, de 30 anos, e Carlos Eduardo Lins da Silva, de 33 e
o coordenador da Agência Folhas, Dácio Nitrini, de 33,
o homem encarregado de chefiar os repórteres. Esses três,
mais Otavinho, formam a direção da redação.
Abaixo deles vêm os editores, como são chamados na imprensa
os chefes das diferentes seções de uma publicação,
e mesmo nesse grupo se mantêm as características de idades
que às vezes não chegam aos 30 anos e carreiras meteóricas.
São os quadros jovens que, sob Otavio Frias Filho, estão
hoje no poder na Folha.
Essa juventude tem sido motivo de ironia e de ciumeira por parte dos
repórteres e redatores mais velhos. "Os Menudos"
é um dos apelidos que a equipe no comando recebeu dos colegas.
Outro é "Gremlins". E até já se cunhou
um ditado para espicaçar os jovens chefes. "Na Folha
não se confia em ninguém com mais de 30", dizem
os mais velhos. "Nem com mais de 30 anos nem com mais de 30 de
QI." Pode ser mesmo que Os Menudos sejam responsáveis
por muitas das bobagens que saem no jornal e outras tantas que acabam
não saindo, confinadas à política e à
orientação internas. Uma coisa eles têm a exibir,
porém - um sentido de autocrítica não muito comum
entre jornalistas, seres em geral sujeitos ao pecado da soberba e
à fraqueza de considerarem que a publicação que
fazem é sempre a melhor da praça. "A Folha
tem falhas, principalmente no que se refere à informação",
diz Caio Túlio Costa, um dos secretários de redação.
O outro, Carlos Eduardo Lins da Silva, completa: "É inadmissível
a turbulência que vem sendo observada na qualidade das edições".
Folha
e Estado no mesmo dia: duas...
...versões
para a doença de Tancredo
Caio Túlio Costa e Carlos Eduardo Lins da Silva são
dois nomes que numa lista de dez, na qual figurassem assinaturas como
as de Paulo Francis ou Joelmir Beting, o leitor da Folha certamente
cravaria como os menos familiares e os que menos têm a ver com
as influências que recebe diariamente do jornal. Cuidado, leitor
incauto: a cada café da manhã, diante do exemplar de
cada dia, o que de mais fundo se está recebendo são
as marcas desses dois. São eles que, no dia-a-dia, decidem
em última instância que espaço terá cada
seção do jornal, que assuntos merecem mais destaque
e quais são aqueles que vão figurar na primeira página.
Com isso vão plasmando um mundo que, ao chegar ao leitor, terá
a forma que eles lhe quiseram dar.
Casoy: a política nas
notas do Painel
Francis: de Nova York, polêmico
Ruy Castro: novo colunista
no jornal
Beting: da Folha para
a glória na TV
Lancellotti: ponte até a
boca do forno
Escobar: vingado pelos Gaviões
"Aqui na Folha as decisões são coletivas",
diz Caio Túlio. "'Nunca é só da minha cabeça,
ou da de algum outro, que saem as coisas." Em parte a declaração
reflete a realidade de fato, as decisões na Folha
são mais colegiadas do que em outros jornais -, mas em parte
é modéstia de Caio Túlio, um mineiro de Alfenas
criado no interior de São Paulo cujo primeiro emprego foi no
jornal O Imparcial, de Tupi Paulista. Cabe geralmente a Caio
Túlio escrever a manchete do jornal. Será dele, portanto,
a linha com que o leitor primeiro deparará, na porta de casa
ou na banca de jornais, a cada manhã. Outro de seus poderes
é o de fazer ou desfazer estrelas que o público mais
conhece os colunistas ou os repórteres que costumam
assinar suas reportagens. Há três anos, Caio Túlio
telefonou para Silvio Lancellotti, até então um jornalista
mais conhecido por suas críticas de música e suas incursões
no campo cultural em geral, e lhe fez uma proposta: escrever uma coluna
gastronômica. Nasceu então um espaço que é
uma das ligações mais diretas da Folha com a
cidade: uma coluna que tem, como especificidade diante das concorrentes,
a característica de não apenas se deter na descrição
e na apreciação dos pratos, mas também de contar
a história dos restaurantes e falar de seus donos.
A forma como surgiu a coluna de Lancellotti ilustra um bom hábito
existente na Folha: o de tentar perceber sempre o que estão
querendo as leitores. Na época responsável por uma seção
chamada Transa Cultural, publicada na Folha Ilustrada, Lancellotti
certo dia escreveu um artigo sobre a história das pizzarias
da cidade- mas, como não era hábito do jornal fornecer
um serviço direto ao leitor, não publicou nenhum endereço.
No dia seguinte choveram telefonemas de pessoas que queriam saber
onde ficavam as pizzarias citadas. Caio Túlio sentiu que havia
aí campo para avançar e instituiu a coluna regular de
gastronomia.
Caio Túlio e Carlos Eduardo dividem suas tarefas de forma que
um, Carlos Eduardo, fica mais encarregado das decisões preparatórias
de cada edição e outro, Caio Túlio, cuida do
que na imprensa se chama "fechamento"- a hora de efetivamente
cuidar da edição e da forma final dos assuntos. Há
uma outra divisão, segundo a qual Carlos Eduardo, um professor
de comunicações com livros publicados (recentemente
ele publicou um trabalho sobre o Jornal Nacional, da Rede Globo)
e inclinações teóricas, tem certas preocupações
permanentes do jornal. Carlos Eduardo elabora todo mês, por
exemplo, um relatório sobre o "desempenho da redação"
em que faz um minucioso levantamento do comportamento do jornal em
face das diretrizes fixadas por sua direção.
Tomar conhecimento de um desses relatórios é ter acesso
aos rumos mais gerais que a Folha tem perseguido. Fica-se sabendo,
por exemplo, que um dos objetivos do jornal é publicar mais
fotos, mapas e gráficos, dentro do plano de reforçar
"a informação em seu aspecto visual". No relatório
de julho, Carlos Eduardo notava que tinha havido progressos nesse
sentido - haviam sido publicados 598 gráficos durante o mês,
contra 358 no mês anterior, e 85 mapas, contra 62. Quanto às
fotos, a média diária, em julho, foi de 48,4 contra
47,6 em junho - um avanço, notou Carlos Eduardo, "embora
não no nível desejado". Há inquietação
e vontade de aeertar na Folha este é o ponto.
E para entender o que ocorre no jornal é útil voltar
à dupla formada por pai e filho. Eles são importantes,
nessa história toda, não só pela razão
óbvia de se constituírem, respectivamente, no dono do
jornal e sem eu herdeiro. Mais esclarecedora se torna a questão
quando se abandona um e outro, individualmente, e se fixa no que há
no meio deles - ou seja, no relacionamento entre ambos. Pode-se dizer
que aí está a chave que faz a Folha funcionar
com a dinâmica com que funciona hoje.
Nos primórdios da administração Frias, a Folha
de S. Paulo não podia nem mesmo ser chamada de "saco
de gatos" rótulo a ela pespegado nos últimos
anos por seus inimigos, de olho na diversidade de opiniões
e personalidades que desfilam em suas páginas. Mais apropriadamente,
o jornal era um saco de farinha. Chutava-se de lá e de cá,
e ele ia se conformando à forma dos diversos pontapés.
Havia máquinas de escrever, mesas, rotativas, caminhões
e até jornalistas no prédio da Rua Barão de Limeira,
mas dizer que dali saía um jornal era ser generoso. O que saía
era uma coisa impressa que mal se agüentava num distante segundo
lugar em São Paulo e que escasso respeito merecia dos leitores,
para não dizer de si própria.
Esse panorama começou a mudar num dia de 1974 em que o velho
Frias desembarcou em Nova York para uma conversa com Cláudio
Abramo, um dos mais respeitados e experientes jornalistas de São
Paulo. Na Folha desde 1965, depois de ter sido durante dez
anos o todo-poderoso secretário de redação de
O Estado de S. Paulo, Abramo cumpria na empresa de Frias, como
cumpre até hoje, uma acidentada trajetória que alternava
períodos de força total com os de ostracismo. Naquele
dia de 1974 ele estava numa fase de ostracismo e aproveitava o tempo
livre resultante do afastamento da direção do jornal
para um curso nos Estados Unidos. Frias foi buscá-lo ali para
propor-lhe que formulasse um plano para o jornal e que, de posse dele,
voltasse à sua direção.
Detalhe importante: a essa reunião esteve presente também
Otavinho, que foi quem instigou o pai e Cláudio Abramo a se
encontrarem. Desse encontro resultou um momento capital na história
recente da Folha: a abertura de suas páginas, no ano
seguinte, para colaboradores de fora, principalmente da vida acadêmica,
e, entre esses, certos nomes amaldiçoados pelo regime militar.
Em parte essa estratégia foi adotada porque era a mais barata
e mais viável. "O jornal não tinha meios para grandes
coisas", diz Abramo. Em outra parte, deveu-se à intuição
de que naquele momento de aurora da abertura - ou de distensão,
como se dizia naqueles anos Geisel - abria-se um sinal verde e que
fazia bom negócio quem avançasse. O fato é que,
com sua reformulação, a Folha começou
a ganhar o artigo que até então mais lhe fizera falta:
respeitabilidade.
Nesse mesmo ano de 1975, e dentro da mesma estratégia traçada
por Cláudio Abramo, se deu outro fato relevante, para o bem
e para o mal, na vida do jornal- a contratação do comentarista
Paulo Francis, com a missão de correspondente em Nova York.
Por ora, porém, atente-se apenas para a circunstância
de o velho Frias ter começado a dar força a qualidade
de seu produto jornalístico exatamente quando o filho começava
a ensaiar sua entrada na idade adulta. Talvez isso seja mais do que
coincidência. Pode-se arriscar a hipótese de que o pai
se tenha sentido duplamente motivado a tocar em frente e dar nova
consistência a seu empreendimento ao deparar com um filho que
saia da adolescência com alguma queda e muita gana pelo negócio.
Vê-se no rosto de Otavinho que se trata de um intelectual. De
físico franzino e óculos de aro fino, ele serviria à
perfeição a um caricaturista que quisesse criar um personagem
que vive entre os livros. E ele vive entre livros. Solteiro, não
têm outra vida além do jornal e dos estudos - sua paixão
acadêmica chega ao ponto de demonstrar enfado pela balbúrdia
de fatos nem sempre relevantes que constituem a vida jornalística.
"Eu nunca quis ser diretor de redação", diz.
"Minhas vaidades não estão aí." Ele
diz que quer seguir a vida acadêmica - formada em Direito, ocupa-se
agora de uma tese em Ciências Sociais, sob a orientação
da antropóloga Ruth Cardoso, mulher do senador Fernando Henrique
Cardoso. O estilo ascético e fortemente normativo que Otavinho
imprime ao seu cargo de diretor de redação é
ilustrado pelos dois únicos volumes que se encontram em sua
sala na Folha de S. Paulo: a Constituição do
Brasil e o Manual Geral da Redação, um volume
em que fez enfeixar uma série de regras, variando do português
à conduta editorial, que deve servir de orientação
para os jornalistas da Folha de S. Paulo.
Matinas Suzuki Jr. No seu terminal de computador
na redação: "Adoro o que faço"
A relação entre o pai empresário, com fama de
pão-duro e administrador de pés no chão, e o
filho intelectual não poderia ser de maior respeito e carinho,
segundo testemunhas próximas da família. "Eu diria
até que é uma relação fora de moda",
diz uma dessas testemunhas. Pai e filho se beijam, ao se cumprimentar.
O pai ouve com atenção - , endossa sem restrições
- as teorizações em que o filho baseia sua maneira de
dirigir a redação. Em troca, Otavinho, criado em reuniões
de jornalistas e conversas sobre linhas editoriais ou os destinos
do país, tem para com o pai atenções como a menção
que fez durante um discurso perante os colaboradores da Folha, em
1981. "De meu pai aprendi o pouco que sei", disse.
Um terceiro membro da família está agora chegando à
direção da empresa: Luiz Frias, de 22 anos, o irmão
mais novo de Otavinho, feito diretor comercial em novembro de 1982.
Na verdade, a família Frias faz por merecer um bom espaço
numa reportagem sobre a Folha, exatamente porque nessas ocasiões
se procura mostrar o outro lado, menos conhecido, do jornal. Seu próprio
estilo, porém, não é o de aparecer muito, ou
pelo menos é o de aparecer muito menos e impor muito menos
a sua personalidade às suas publicações do que
outros donos de jornal. Eles dão espaço para que outros
brilhem - e é por isso que na Folha brilham tantas estrelas,
falsas ou verdadeiras.
Em primeiro lugar brilha Paulo Francis nas páginas da Folha,
contemplado repetidamente com o primeiro lugar nas pesquisas internas
que o jornal realiza sobre o índice de leitura de seus articulistas.
Autor de 700 textos por ano, que produz diretamente no telex instalado
em seu apartamento de Nova York, Francis trouxe à Folha
o tom de polêmica inerente ao seu estilo de jornalismo corpo
a corpo e um jeito pessoal do qual o leitor dificilmente escapa -
para admirá-lo ou ficar com raiva. Azar do jornal é
que, na esteira da marca Paulo Francis, se formou uma legião
de imitadores que já chateariam pelo simples fato de serem
imitadores, e chateiam muito mais quando se percebe que não
estão tão equipados como o original. Talvez seja a eles
que se refere o sociólogo Gabriel Cohn ao afirmar, especialmente
sobre a FolhaIlustrada: "Lá existe um pessoal
embevecido de si próprio que não dá para agüentar"
.
Luiz Frias: o mais jovem membro da família
à frente do Departamento Comercial
A Folha Ilustrada é um capítulo à parte
em qualquer consideração sobre a Folha de S. Paulo
- um espaço aberto à aventura que lembram as tradições
da imprensa alternativa das décadas de 60 e 70. A heterodoxia
começa pela parte gráfica, mais solta e cheia de invenções
que as outras partes do jornal. E termina no conteúdo dos textos,
em que os autores têm licença para o exercício
do personalismo e da iconoclastia. Aberta, par suas próprias
características, para o florescimento dos melhores e dos piores
talentos do jornal, a Ilustrada já serviu de abrigo,
por exemplo, para o próprio Caio Túlio Costa, galgado
da posição de seu editor para a secretaria do jornal.
Hoje quem ali reina é Matinas Suzuki Júnior, de 30 anos
- um dos expoentes da ala jovem que ocupa o poder na Folha.
"A Ilustrada tenta intervir na discussão",
diz Matinas. "Nosso negócio é lançar nomes
e modas." Como editor do caderno mais polêmico do jornal,
Matinas procura conciliar o que chama de "sobra da imprensa alternativa"
com os interesses do grande público. "São Paulo
está formando uma vanguarda cultural do país",
acredita ele. Com isso em vista, a Ilustrada procura se dirigir
sobretudo aos jovens e, já que se fala em jovens e em vanguarda
cultural, a ordem é avanç;ar. "Aprontar um pouco
faz parte do projeto", conta Matinas. "É um risco
calculado."
Se fazer jornalismo polêmico, uma das normas da Folha Ilustrada,
e criar confusão, pode-se assegurar que o crítico
Pepe Escobar, registrado Petrônio Flávio Escobar França
de Andrade, de 31 anos, especializado em cantores de rock, autores
underground e filmes mais subterrâneos ainda, é um campeão.
Escobar já foi acusado de plágio, comprovadamente, nas
próprias páginas da Folha Ilustrada, e por um
próprio companheiro de jornal - o hoje editor de política
André Vitor Singer. Singer percebeu que um artigo do crítico,
sobre o cantor inglês David Bowie, publicado em 1983, era na
verdade copiado de um livro. Em outra ocasião, entre todos
os adversários possíveis, Escobar foi se meter com ninguém
menos do que os Gaviões da Fiel - o aguerrido agrupamento de
torcedores do Corinthians. Isso ocorreu quando o crítico foi
escalado para cobrir um jogo de futebol e analisar o comportamento
da torcida. Provavelmente os interessados nem entenderam bem o que
ele quis dizer, mas farejaram algo de mau num título
"Uma temporada no inferno nas asas dos gaviões".
A decisão imediata, por parte de três dos gaviões,
foi ir À redação da Folha tomar satisfações.
Resultado: Escobar teve de ser retirado da redação sob
escolta e ameaças de morte.
Discurso
da Nova República: a Folha...
...bobeia
e não dá manchete
Espantoso é que um espírito como o de Pepe Escobar conviva,
nas mesmas páginas da Ilustrada, com o veterano Tavares de
Miranda, um cronista social do velho estilo, autor de notas como "Maria
Helena Cardoso de Almeida Amorim convidando para o jogo de tranca
no Harmonia, em benefício da APAE" e de seções
como Na Ronda dos Nats, em que registra os aniversários do
dia. Na verdade, porém, o espanto fica mais por conta do leitor.
Entre os próprios jornalistas a convivência e perfeitamente
pacífica - e exemplo disso e a maneira com que se tratam Tavares
e o outro colunista da página 2 da Ilustrada, Ruy Castro.
Desde julho responsável pela freqüentada seção
de notas curtas que antes atendia pelo nome pernóstico de Estilo
e Prazer, Ruy Castro costuma bradar a Tavares, quando chega à
redação: "Poeta José, como vai?" José
Tavares de Miranda responde: "O que ha de novo?" E Ruy Castro
completa: "Muita galinha e pouco ovo". Quanto às
diferentes especialidades de sua própria coluna e a do cronista
social, Ruy Castro explica: "Eu fico com a alta cultura, e ele
com a alta costura".
A Folha continua a investir num elenco de colunistas que se
expande mesmo para fora da Ilustrada e inclui nomes como o de Joelmir
Beting, um especialista em economia que das páginas do jornal
decolou para a celebridade na TV. Mas atenção, navegantes:
por mais que ainda brilhem as colunas e os nomes antigos ou novos,
fazer jornalismo de estrelas - antiga marca registrada da casa - não
é mais uma prioridade da Folha. Antes do que a opinião
do seu quadro de funcionários ou colaboradores, o jornal agora
dá ênfase à melhora da qualidade de sua informação,
motivo de infindáveis pregações em reuniões
e em documentos internos. "A Folha agora está investindo
na informação", diz Otavio Frias Filho. Quando
menos, essa é uma linha que se impõe até pelos
tempos que o país esta vivendo. "O que mudou com a resistência
ao autoritarismo", lembra Carlos Eduardo Lins da Silva. "A
Folha cresceu com a abertura e com a coragem de receber gente
maldita pelo regime." Agora, segundo nota o próprio Carlos
Eduardo, não há mais autoritarismo contra o qual se
rebelar, e por isso mesmo o jornal deve se impor pela pura qualidade
de sua informação. "Aquele charme antigo não
existe mais", diz ele. "O jornal, nesse aspecto, perdeu
seu diferencial."
Trata-se de uma batalha que, para o bem do leitor, tem dado bons resultados.
Na semana em que foi anunciada a taxa recordista de inflação
de agosto, de 14%, a Folha conseguiu dar a notícia com
um dia de antecipação com relação ao anúncio
oficial, num furo nacional. A justa luta pela informação
pode evitar também equívocos como o ocorrido no dia
16 de novembro do ano passado, quando a Folha deixou de dar,
em sua primeira página, o mais importante discurso pronunciado
par Tancredo Neves durante a campanha eleitoral daquele em que ele
lançava o conceito de "Nova República". O
jornal, perigosamente inclinado para a adoração do próprio
umbigo, preferiu publicar, naquele dia, a repercussão de um
delirante editorial publicado no dia anterior, em que pedia a renúncia
de Tancredo e a imediata realização de eleições
diretas.
Pontos
altos da Folha: as diretas...
...e
o furo dos 14% de inflação
A reboque da melhora do jornal a Folha, em cujos quadros trabalham
162 jornalistas, mais 189 repórteres lotados na Agência
Folhas, tem aprimorado seu departamento comercial, sob o comando de
Luiz Frias - o mais jovem dos membros do clã. Lançado
em março de 1982, o caderno de imóveis do jornal - o
Classifolha Imóveis - conseguiu se diferenciar desde
logo pela maneira ordenada com que expunha os classificados, divididos
por bairros, e pelos anúncios coloridos. Hoje, segundo Luiz
Frias, o Classifolha Imóveis tem conseguido estrondosos
sucessos. "Conseguimos fazer crescer o espaço de nossos
classificados mais de 1 000%, do primeiro para o segundo trimestre
de 1985", diz ele.
Recentemente, Cláudio Abramo, hoje um articulista político
da Folha, entrou na redação do jornal, onde agora
os terminais de computador substituem as máquinas de escrever,
e disparou, com sua aguda ironia: "Eu já não posso
ser jornalista. Ainda escrevo na máquina de escrever, sei português
e tenho raciocínio lógico". Quando é levado
ao mau humor pelos erros pequenos e grandes do jornal, o leitor pode
ter o consolo de que pelo menos alguém zela por ele, alguém
como o santo padroeiro Abramo, cultor de virtudes elementares. Impossível
deixar de reconhecer, porém, que alguma eletricidade há
no jeito de pessoas como Matinas Suzuki Jr., o jovem editor da Ilustrada.
Sempre de olho no seu terminal, de onde controla os textos em sua
viagem instantânea até as oficinas, Matinas responde
com uma expressão de beatitude quando lhe perguntam se gosta
do que faz. "Eu adoro", afirma.