Roteiros de
Veja São Paulo Acesse pelo seu celular mais de 1.000
endereços de restaurantes, bares e comidinhas e as opções
de programação dos cinemas e teatros da cidade.
Suave é a vida nos Jardins No quadrilátero dourado da
cidade, pessoas ricas, bonitas
e elegantes lançam moda e fazem do dia-a-dia uma grande festa
Por Augusto Nunes
A celebração começa com o almoço no restaurante
Salad's, na Rua Oscar Freire, em pleno coração dos Jardins.
Em seguida, caminha-se algumas dezenas de metros para o café
no L'Arnaque, mirante perfeito para a contemplação do
desfile que anima as tardes na região. Depois, chega a vez
do passeio às margens das vitrines da rua. Velhos freqüentadores
do lugar fazem uma escala na Banca do Carioca - conversar com o dono
enquanto se folheia uma revista é sinal de intimidade com os
usos e costumes nativos. O crepúsculo requer urn drinque em
algum bar que tenha importado o hábito americano do happy hour,
uma das alegres manias da temporada. O jantar pode acontecer no Manhattan,
ante-sala adequada para o fim de noite no Gallery ou no Rose Born
Born. Ao completar a jornada, o passageiro dessa viagem pelos Jardins
terá seguido à risca o código de comportamento
em vigor no mais requintado paraíso do bem viver de São
Paulo e hoje, provavelmente, de todo o Brasi!.
Esse paraíso ilumina um quadrilátero que tem como limites
a Avenida Paulista, a Rua Estados Unidos, a Avenida 9 de Julho - ou,
para muitos, a Brigadeiro Luis Antônio - e a Avenida Rebouças.
A região é riscada por 28 ruas - e abrange tantos atrativos
que seu código de comportamento permite infinitas variações.
O almoço e o jantar, por exemplo, podem ocorrer num dos mais
de 100 restaurantes estrelados que movimentam os Jardins. Para os
interessados na paisagem humana, as mesinhas na calçada do
Sandufehe configuram outro excelente ponto de observação.
0 passeio digestivo será igualmente agradável se tiver
por moldura as vitrines da Rua Bela Cintra. Com ou sem happy hour,
cerca de 200 bares convidam aos drinques, e a esticada nas boates
pode ser substituída por uma madrugada na Pizzaria Otello.
Quaisquer que sejam as combinações extraídas
desse vasto car-dápio do lazer, terá sido traçado
um itinerário que conduz à alma dos Jardins.
British Home: cavalo de carrossel
inglês
"Quem anda por aqui tem o perfil do poder: é rico, elegante,
culto, belo e sofisticado", diz Regina Boni, dona da Galeria
São Paulo, perto da esquina das ruas Augusta com Estados Unidos.
"Os Jardins são um país dentro de outro",
afirma Regina. "Esta região é tão diferente
que nos deixa por fora do que venha a ser o Brasi!." As fronteiras
desse universo singular estão permanentemente abertas a brasileiros
de outros bairros e outras cidades - basta ter boa disposição
e, naturalmente, algum dinheiro para incorporar-se à enorme
população flutuante dos Jardins. Fazer parte da população
fixa e notavelmente mais complicado e difícil.
Uma pequena casa na Alameda Lorena, por exemplo, exige luvas de 80
milhões de cruzeiros, sem contar o alugue!. Apartamentos em
edifícios recém construídos estão sendo
negociados ate por 4 milhões de cruzeiros o metro quadrado.
Na Rua Oscar Freire, a mais badalada do quadrilátero, um ponto
comercial não sai por menos de 200 milhões de cruzeiros.
Nos Jardins, mesmo imóveis com fachadas pouco atraentes custam
muitos zeros - não será difícil conferir-lhes
o encanto da originalidade, como ocorreu com a mercearia transformada
no movimentadíssimo Bar
Supremo.
Certamente interessados em defender seu território de ondas
de invasores, os nativos dos Jardins carregam nas cores quando aludem
a uma de suas características - o trânsito confuso. O
empresário e ator Emile Edde, dono de urn apartamento na estratégica
esquina das ruas Haddock Lobo e Oscar Freire, diz-se atormentado com
os congestionamentos e os carros estacionados em fila dupla - ou tripla,
nos fins de semana. "Prefiro deixar o meu na garagem", diz
Edde. Ele poderia acrescentar que, ao agir assim, apenas obedece a
um dos primeiros mandamentos do lugar. "O que mais me fascina
neste lugar é o fato de que as pessoas circulam a pé",
conta o dono do L' Arnaque, Quentin Geenen de Saint-Maur, um estrangeiro
que adotou os Jardins.
La Baguette: o cheiro de pão
no ar
Filho de pai francês e mãe belga, Quentin nasceu no Zaire
há 32 anos. Está há quatro no Brasil e decidido
a nunca mais sair dos Jardins. Desde sua chegada ao país, suspendeu
suas temporadas na Europa, mas ao menos quanto a sotaques não
pode queixar-se de saudade. A julgar pelo som que vem das mesas do
L' Arnaque, a língua oficial do restaurante de Quentin é
o francês. O segundo idioma é o inglês, e mesmo
as conversas em português são generosamente temperadas
por expressões estrangeiras. Quentin jura que a abastada clientela
do L' Arnaque ainda não conseguiu enriquecê-lo. Pelo
menos garantiu-lhe o suficiente para abrir no mês passado outro
restaurante na Avenida Paulista, o Up Town. Coerentemente, esse filho
adotivo dos Jardins faz a pé o trajeto entre seus dois restaurantes.
Caminhar por ali é sempre fascinante e, sobretudo para forasteiros,
surpreendente. Pela manhã, a multidão que caminha pelas
ruas é formada basicamente por habitantes do lugar, entretidos
na ronda dos supermercados, padarias e, naturalmente, lojas. Durante
a tarde a vaga humana é engrossada por brasileiros de outros
bairros, dispostos a pelo menos examinar as vitrines. A senha para
a festa é dada pela abertura dos bares, no fim da tarde. A
calma só será retomada no meio da madrugada, quando
o alegre barulho dos convivas dos Jardins se concentra nas boates,
danceterias e clubes privês da região.
A calçada
do Sanduíche, na rua Oscar Freire, coração
dos Jardins: excelente ponto de obrservação da
doce vida do bairro
Os Jardins são sobretudo um mar de vitrines, que incorpora
tanto o velho logotipo das Casas Pernambucanas quanto os modelos exclusivos
e milionários de Madame Rosita. Na Haddock Lobo, a Dengo's
Dog exibe presentes para bichos de estimação. Na Bela
Cintra, a British Home oferece objetos para decoração
de inspiração inglesa, distribuídos pelas sete
salas de um sobradinho cor-de-terra, com janelas verdes e o umbral
da entrada abraçado pela hera. Inaugurada há seis anos,
a British Home vive repleta de móveis, quadros e objetos nem
sem-pre originais, mas invariavelmente marcados pelo bom gosto, comprados
de famílias britânicas residentes no Brasil ou trazidos
da Inglaterra. "Acho as ruas Oscar Freire e Bela Cintra parecidas
com a Via Borgognona, em Roma, com a diferença de que lá
não circulam automóveis", diz a socialite Eleonora
Mendes Caldeira.
O mapa do paraíso
Nas ruas dos Jardins,
um espaço privilegiado de lazer e cosumo
Há um ano, Eleonora trocou seu refúgio no Morumbi por
um apartamento nos Jardins, e adorou a mudança. "Aqui
se vive no meio do ti-ti-ti, perto de tudo, é ótimo",
exulta. Outros trechos do bairro, mais tranqüilos, po-deriam
lembrar as ruas comerciais procuradas pela classe média de
qualquer cidade do interior.
A boate Rose Born Born: no agitado
reduto da juventude dos Jardins ,música e dança
Essa amistosa convivência na diversidade é outra marca
dos Jardins. Pessoas famosas gravam seus nomes nas paredes do restaurante
Oscar, moradores anônimos festejam com faixas penduradas nos
postes parentes que fazem aniversário ou regressam de viagem
- faixas de cumprimentos nas ruas, por sinal, são uma invenção
dos Jardins. O ortodoxo Frevinho, ancorado há trinta anos na
esquina da Augusta com Oscar Freire, coexiste fraternalmente com jovens
e barulhentos vizinhos que têm proliferado no agitado quadrilátero.
É o caso do diminuto Spea-keasy, onde a clientela costuma transbordar
para a Rua da Consolação - a "prainha", no
jargão dos freqüentadores. Ou do Rock Dreams, que tem
mesas na calçada e uma carcaça de autómovel adornando
a fachada.
"Os Jardins representam hoje para o paulistano o que foi Ipanema
para os cariocas há alguns anos", compara a editora de
moda Costanza Pascolato. "Ali está a grande passarela
da moda, o espaço livre onde todos, sem exceção,
podem ousar." Em seu trabalho na revista Claudia Moda, Costanza
procura inspirar-se na mulher dos Jardins. "Ela coloca em primeiro
lugar a produção e só depois o traje", explica
Costanza. A "produção" é inteiramente
feita no quadrilátero. Os cabelos têm a marca do Beka,
do L'Officiel ou do Marco e Marcelo Beauty. A limpeza de pele fica
por conta do Jacques et Janine, os óculos de sol são
da T. Macchione e a gravatinha sai das vitrines da Márcia Pinheiro.
Ney Galvão: "O Gallery
é a minha casa"
"A mulher dos Jardins é reconhecível mesmo quando
está usando uma roupa idêntica à de uma paulistana
de outro bairro", diz Costanza. "É só prestar
atenção ao modo de transar um acessório, ao corte
do cabelo, à maneira de andar. Há um trabalho de produção
por trás daquilo." E a versão masculina dos Jardins?
"É o único lugar da cidade onde o homem ousa um
pouco mais", afirma Costanza, que identifica dois tipos basicos.
"Há o tipo clássico, que se veste em lojas como
a Richard's, e o garotão, que gosta de camisões supercoloridos
da Mr. Wonderful ou da butique Fórum."
Alguns truques podem facilitar o tráfego de um recém-chegado
aos Jardins. Recomenda-se, por exemplo, jamais demonstrar entusiasmo
pela Rua Augusta, a grande espinha dorsal do bairro, considerada definitivamente
ultrapassada - out, no idioma dos Jardins - pelos especialistas. E,
como sugere a fotógrafa Vânia Toledo, "é
preciso ao menos conhecer as pessoas" - por-que os antigos freqüentadores
efetivamente se conhecem, como avisa o figurinista Ney Galvão.
No Gallery, por exemplo, Ney garante sentir-se absolutamente à
vontade. "O Gallery é uma extensão da minha casa,
conheço todo mundo", diz.
Para um conhecedor do código dos Jardins, é uma heresia
consultar cardápios em certos restaurantes. O In Cittá,
por exemplo, é um lugar para se ordenar um prato de nhoque.
No David's, um almoço não começa adequadamente
sem a mortadela com limão no aperitivo. No L' Arnaque, é
tempo de pato com manga. Para beber, em qualquer lugar dos Jardins,
estará dentro das regras quem pedir vinho branco servido em
copos, mesmo que seja nacional. Outro cuidado indispensável
é ter sempre um sorriso pronto - em nenhuma outra parte de
São Paulo há tal profusão de fisionomias risonhas.
"Os Jardins são uma festa", diz a atriz Bruna Lombardi,
que nasceu no Rio de Janeiro mas passou boa parte da sua vida na Alameda
Jaú. "É um lugar de pessoas alegres, inteligentes,
que têm estilo e tentam fazer da vida uma arte." Embora
morando no Morumbi, Bruna pemanece estreitamente ligada ao quadrilátero.
"É a minha casa, o meu pedaço", diz. "Gosto
de andar pelos Jardins. Sempre há novidades para descobrir
numa de suas ruas, nas esquinas e nas lojas."
Quentin, do L'arnaque: "Aqui
dá gosto andar a pé"
O Padre João Manuel Fernandez,
na única igreja dos Jardins
Beltrame e seu táxi: distribuindo
santinhos a pagamento
Nos Jardins, as grandes novidades não costumam ser postas de
lado depois de saboreado o encanto da descoberta - ao contrário,
incorporam-se aos endereços obrigatórios da região.
Foi assim com a padaria La Baguette, inaugurada há um ano na
Rua Padre João Manuel, cer-tamente a mais refinada casa do
ramo em todo o país. As diferenças começam a
porta, onde um manobrista se encarrega de estacionar os carros da
freguesia. Dentro da padaria, um desvio na tubulação
canaliza para o ar condicionado o cheiro das fornadas de pães
que saem do forno a cada meia hora. Seduzidos por esse apelo irresistível,
dezenas de clientes acotovelam-se em busca de saborosos e irresistíveis
brioches, baguetes, croissants e outras especialidades da casa, produzidas
sob a supervisão de dois padeiros formados na Europa. Os fornos
da La Baguette assam vinte diferentes tipos de pão e outras
especialidades por dia, gerando um faturamento de até 600 milhões
de cruzeiros mensais.
Como centenas de fregueses acorrem à padaria vindos de pontos
distantes da cidade, os donos da La Baguette resolveram abrir filiais
em outros bairros. "Dentro de algumas semanas, vamos inaugurar
a filial do Itaim", informa o diretor comercial da empresa, Marcos
da Silva Telles. Nem sempre fómulas bem-sucedidas nos Jardins
repetem o êxito quando deslocadas do cenário original.
A Churrascaria Rodeio, por exemplo, é uma instituição
do lugar. Vende 450 quilos de carne por dia, mantém a media
de 800 couverts e emprega uma multidão de 200 funcionários,
distribuídos por três turnos de trabalho. Em 1983, as
donos da Rodeio abriram uma filial no Shopping Center Eldorado. A
carne era a mesma, o cardápio era o mesmo, os cozinheiros eram
os mesmos. Mas o endereço estava fora do mítico quadrilátero
- e o Rodeio Eldorado teve de fechar suas portas no ano passado, depois
de uma curta e melancólica carreira.
É muito difícil, por exemplo, imaginar a Casa Santa
Luzia fora da moldura dos Jardins. Esse templo das finas iguarias
abriu suas portas pela primeira vez em 1926 para uma Rua Augusta que
não tinha sequer calçamento. Migrou depois para a Alameda
Lorena e ali reina até hoje. "Os preços da Santa
Luzia são mais salgados, mas não resisto: faz 25 anos
que apareço todo dia para comprar alguma coisa", diz Waldemar
Lerro, 81 anos. Entre as preciosidades existentes nas prateleiras
da Casa Santa Luzia po-dem ser encontrados vinhos do Porto da Companhia
Velha (1,45 milhão de cruzeiros) ou salmão Inglês
em fatias (400000 cruzeiros o quilo). Há dois meses, a Santa
Luzia passou a oferecer a clientela carrinhos de compras equi-pados
com minicalculadoras. Com isso os clientes podem controlar melhor
a multiplicação dos zeros.
Ciosa dos filões existentes em seu território, a população
nativa não costuma incursionar além das fronteiras do
quadrilátero em busca de mantimentos. Muitas famí-lias
dos Jardins se abastecem de carne no Wessel da Avenida Faria Lima,
que oferece produtos fora do alcan-ce do único açougue
convencional instalado na região. Outras se recusam a fazer
até mesmo essa concessão ao mundo exterior, recorrendo
aos quatro supermercados dos Jardins ou enfrentando os preços
salgados da Casa Santa Luzia.
O comércio nos Jardins:
um exclusivo paraíso de compras para quem tem o
perfil do poder
Os grandes endereços dos Jardins inevitavelmente se transformam
em vitrines de gente famosa. O pretexto para enfileirar rostos conhecidos
- atores, políticos, empresários - pode ser o apetite
por doces e salgados da cozinha judaica polonesa, responsável
pelo êxito da Z. Deli, aberta há três anos na Haddock
Lobo. Para Aldenir Rodrigues, barman do Supremo, é natural
que tudo acabe em festa. "O que são os Jardins?",
pergunta Rodrigues, para responder em seguida: "A zona do ti-ti-ti".
O barman do Supremo ganha em média 4 milhões de cruzeiros
por mês e garante que não pretende fazer fortuna. "Não
preciso ser rico", diz. "Quero apenas que os ricos continuem
existindo, para que gente como eu possa servi-los."
A mesma frase poderia ser repetida, sem retoques, por Devanir Marcolino
Gall, O "Carioca" da banca de jornais e revistas plantada
na esquina da Oscar Freire com a Haddock Lobo. Há treze anos
no comando da banca mais popular dos Jardins, Carioca fatura em média
1 milhão de cruzeiros por dia. Fregueses antigos têm
direito a regalias extras, como descontar cheques, comprar fiado ou
conseguir empréstimos para corridas de táxi. Há
seis meses, Carioca hesitou em bancar um empréstimo para um
jovem que não conhecia. Cedeu quando seu interlocutor lhe ofereceu,
em garantia de um empréstimo de 10 000 cruzeiros, um isqueiro
Bic com capa de prata 90. Até hoje Carioca desfila com o isqueiro,
a espera de que o dono reapareça.
Outro beneficiário da prodigalidade dos moradores dos Jardins
é o motorista de táxi Odilon Rodrigues Beltrame, 53
anos, há dezenove no ponto localizado na esquina das alamedas
Casa Branca e Lorena. Beltrame fatura cerca de 300 000 cruzeiros por
dia - sobretudo porque, além das corridas, faz numerosos serviços
ex-tras para os moradores dos Jardins. Levar crianças à
escola, por exemplo, implica uma taxa adicional de 5 000. cruzeiros.
"Já servi a muita mulher enciumada, tentando seguir os
passos do marido", conta Beltrame. "Mas isso é perigoso,
e hoje não faço um trabalho desses por menos de 500
000 cruzeiros." .
Alguns serviços confiados aos 24 motoristas do ponto são
decididamente originais. No mês passado, Zelidia Delboni, dona
de um apartamento no no. 11 da Alameda Casa Branca resolveu
recorrer a Beltrame para ajudá-la a pagar uma promessa a Santo
Antônio na Igreja Nossa Senhora do Brasil. Além de transportar
a cliente, o motorista passou a tarde distribuindo santinhos à
porta da igreja, em nome de dona Zelidia. Beltrame não revela
quanto ganhou pela tarefa. "Ela é uma senhora muito generosa",
resume.
Os Jardins têrn a sua própria igreja - e, previsivelmente,
ela não e uma igreja qualquer. Construída para católicos
de língua inglesa, sé em 1966, atendendo à orientação
do Concílio Vaticano II, a Paróquia Nossa Senhora Mãe
da Igreja permitiu que o idioma português ecoasse entre suas
paredes e 36 vitrais, todos doados por famílias britânicas,
americanas e canadenses. "Nesta região há muitos
judeus, mas temos um grande número de fiéis católicos",
informa o padre João Manuel Fernandez. Existe nos Jardins,
também, um vasto rebanho a incorporar.
"Como boa elite que se preza, o pessoal aqui não é
moralista", diz Regina Boni. É improvável que qualquer
outra parte da cidade acompanhe o ritmo do quadrilátero no
consumo de drogas caras. Namora-se muito nos Jardins - nos bares,
nos restaurantes, nas boates, nas ruas. Mas até mesmo os habitantes
dos prédios vizinhos não parecem incomodar-se com o
movimento noturno do "Autorama", ao redor da quadra ocupada
pelo Colégio Dante Alighieri, onde jovens motorizados, hoje
assustados com a AIDS, circulam em busca de parceiros eventuais. Ironicamente,
essa liberdade de costumes tem o mesmo endereço do colégio
que desde sua instalação na Alameda Jaú tem configurado
uma fortaleza do tradicionalismo.
Santa Luzia: apelo irresistível
de finas iguarias
O Dante Alighieri é a estrela maior de uma constelação
que inclui mais de cinqüenta colégios, escolas, escolinhas,
cursos de línguas e de especialidades bizarras. Bebês
podem aprender natação na Mare ou ioga na Hello Baby.
A Mãe Terra, uma loja de produtos naturais, ministra cursos
de Astrologia e de produção de queijos. E formam-se
rabinos no seminário anexo ao Colégio Iavne Beith Chinuc,
plantado há trinta anos na Rua Padre João Manuel. O
colégio, criado pela Sociedade Judaica e hoje subordinado à
Secretaria de Educação do governo estadual, tem mais
de 540 alunos, quase todos de ascendência israelita, e não
alterou sensivelmente os métodos utilizados ao tempo em que
ali estudava o físico nuclear e presidente da Eletropaulo,
José Goldemberg, 57 anos. "As lembranças que guardo
do colégio são as melhores possíveis", depõe
Goldemberg. "0 Iavne Beith Chinuc me deu a formação
moral e religiosa de que necessitava."
Esse colorido painel, que inclui trinta livrarias, quatro cinemas
e um teatro, representa, segundo o presidente da Paulistur, João
Dória Júnior, 27 anos, "O núcleo mais charmoso,
agradável, divertido e agitado da cidade de São Paulo".
E, também, a atração turística que menos
trabalho dá ao organismo dirigido por Dó-ria. "Os
Jardins dispensam a ação direta da Paulistur",
reconhece. "0 lazer pago tem sido suficiente na área."
João Dória Júnior mora na Alameda Jaú,
defronte do coreto do Parque Siqueira Campos, o Trianon, e não
pretende sair dali. "É neste bairro que os hábitos
e tendências de São Paulo surgem ou se concretizam",
diz.
Tem sido assim desde os anos 70, mas nunca como agora os Jardins ditaram
a moda de forma tão avassaladora. O empresário Aparício
Basílio da Silva, 49 anos, há trinta no quadrilátero,
foi testemunha e, eventualmente, protagonista dessa ascensão
dos Jardins. Em 1956, ele comprou um prédio na Rua Augusta
onde funcionava uma quitanda e montou uma butique que seria o embrião
da Rastro. Naquela época, Aparício inevitavelmente causava
espanto ao circular com cabelos compridos, calça verde, uma
enorme suéter e óculos com grandes aros de tartaruga.
Hoje, se caminhar com esses trajes e adereços pelas ruas do
lugar, será apenas mais um nos Jardins.
Dono de três lojas no quadrilátero e de um apartamento
na Rua da Consolação, Aparício Basílio
da Silva se diz nostálgico dos tempos em que havia poucos prédios
na região e se queixa do barulho das cantinas instaladas nas
cercanias de seu edifício. Mas basta aproximar-se da janela
de seu apartamento de cobertura para se render ao fascínio
do lugar que ele elegeu há quase trinta anos. "Os Jardins
são o centro da minha vida", diz Aparício. "Preciso
desta vista para morrer em paz." E para viver com intensidade,
diriam outros milhares de habitantes desse quadrilátero do
prazer.
O
pique certo do Supremo
Não foram precisos mais do que dois meses, sem qualquer
propaganda ou esquema de lançamento, para que o Supremo
se tomasse o bar mais quente dos Jardins. Bastou, do início
de julho para cá, que a novidade corresse de boca em
boca: o bairro ganhou uma nova marca, a paisagem da esquina
da Consolação com Oscar Freire mudou de cara e
não se passa mais por ali à noite, a partir das
22 horas, sem ter a atenção chamada pelo agito
de dezenas de pessoas aglomeradas na calçada, tentando
entrar ou querendo sair batendo papo ou simplesmente apreciando
o movimento.
O Supremo é um bar com espírito de botequim. "A
idéia era abrir uma casa que tivesse todo o clima dos
famosos botequins da São Paulo de quarenta anos atrás",
diz Roberto Suplicy, um dos sócios do bar. Só
que não a de um botequim qualquer, e sim um botequim
dos Jardins - o que já basta para torná-lo muito
diferente dos outros. De qualquer forma, as pessoas vão
ali para beber, e têm feito isso com muita aplicação.
Desde a noite de inauguração, quando o estoque
de bebidas se esgotou, têm sido consumidas diariamente
duas caixas de uísque, e até agora a gerência
ainda não teve de se preocupar com a possibilidades de
haver bebidas de mais no estoque. Bebe-se no Supremo, hoje,
ao ritmo de 10 a 15 milhões de cruzeiros por dia.
Na
esquina da Consolação com Oscar Freire,
o Supremo: um bar com espírito de botequim
Os donos, Roberto Suplicy, Américo Marques da Costa Neto
e Arnaldo Diederichsen, colheram com rapidez o sucesso de uma
idéia que, antes de dar certo, poderia parecer banal:
compraram a velha mercearia que funcionava no local, fizeram
questão de manter seu estilo rústico, assim como
o balcão, a fachada e as prateleiras originais, e deram-lhe
o nome de um botequim que havia na Rua da Quitanda, no centro
velho, anos atrás. Desde logo, o Supremo conseguiu algo
difícil de ocorrer hoje em dia, em se tratando de bares
da moda - fazer sucesso sem ter de ser freqüentado pela
garotada. A faixa de idade ali vai dos 30 aos 50 anos, e boa
parte da freqüência se deve ao bom e extenso relacionamento
dos donos só a presença dos amigos já
lhes garantiria uma casa meio cheia.
O barman do Supremo, Aldenir Rodrigues, de 33 anos, que já
trabalhou no Trianon do Maksoud Plaza e no O Profeta-Jardins,
acha que a casa está com "o pique certo". Aldenir,
um ex-manequim que usa pulseira de aura, caneta Cartier e isqueiro
Dupont, acredita que o bairro tem tudo a ver com a sucesso do
Supremo. "De noite os Jardins são um grande sanatório",
diz ele. "E quando se chega à essência, quando
rola a bebida e as pessoas se soltam." Para se gostar do
Supremo, é importante um cuidado especial com o horário
em que se vai. Certeza de achar um lugar para sentar? É
preciso chegar não muito depois das 6 horas da tarde,
quando o bar é procurado por executivos e empresários
das imediações. Às 9 horas já começa
a se formar uma situação de multidão, com
o acúmulo dos que chegam para jantar. Depois das 11 fica-se
simplesmente de pé, às vezes até na calçada,
e o Supremo passa a pertencer aos boêmios.
A lista de frequentadores conhecidos vai longe: Jô Soares,
Carla Camuratti, Maria Zilda, Linda Conde, Ney Galvão,
Paulinho Montoro, Eduardo Suplicy - irmão do dono. Outros
estão aguardando a hora certa. O publicitário
Mário Lúcio Fernandes, um frequentador assíduo
dos bons lugares da noite, vai esperar um tempo até que
passe o alvoroço do começo. "Não tenho
paciência de entrar em fila para beber", explica
ele. "Vou deixar a poeira baixar - depois começo
a ir."