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PASSEIOS

Vozes veladas

A Video Vozoteca pretende documentar e guardar as vozes da cultura brasileira. Mas há também espaço para a história do mundo

 

Por Serena Calejon

18.05.2007

 

Luiz Ernesto Kawall

Há um lugar em São Paulo em que o pai da aviação Santos Dumont convive lado a lado com o ex-presidente Juscelino Kubitschek e a poetisa Cora Coralina. Perto deles, estão o inventor americano Thomas Edison, a cantora alemã Marlene Dietrich e a primeira-ministra indiana Indira Ghandi. Eles são habitantes de uma coleção particular. O dono, o jornalista aposentado Luiz Ernesto Kawall, pretende guardar o som das vozes que ajudam a contar a história do Brasil - e do mundo. Entre os 3 000 itens mantidos em sua casa – um apartamento com vista para a Praça Benedito Calixto, em Pinheiros – há espaço para todo tipo de registro em voz. Mas a maior parte é composta de seus assuntos favoritos: política, música popular brasileira e futebol. Tudo arquivado (em vinis, CDs, cassetes, VHS e DVDs) e, generosamente, aberto ao público. Basta telefonar e agendar uma visita.

Num canto da sala cheia de luz natural do apartamento que Kawall divide com um neto, fica a estante que abriga parte de sua coleção, que disputa a atenção com diversos quadros que cobrem as outras paredes. Num dos quartos, mora a coleção de cassetes. Tudo é mantido limpo e organizado com a ajuda de Júlia, que passa as manhãs cuidando do apartamento. O material é catalogado por ordem de chegada: cada nova aquisição entra no fim da lista. “Eu gostaria de organizar por temas, mas dá muito trabalho. Estou sondando alguém para fazer isso por mim, alguma biblioteca ou instituto cultural: eu doaria todo o meu acervo se eles o digitalizassem."

Joel Maia / acervo pessoal-divulgação / Iugo Koyama

JK, Santos Dumont e Cora Coralina: unidos pela voz

A coleção começou a nascer há 40 anos, com um disco de vinil contendo discursos e leituras de Carlos Lacerda ( > Ouça ), recém eleito governador da então província de Guanabara. A bolacha, que leva o selo número 0001 do catálogo de Kawall, foi um presente do próprio Lacerda, com quem o jornalista trabalhou durante a bem-sucedida campanha no Rio de Janeiro. Cada item do acervo, aliás, tem uma história ou um comentário pessoal sobre o assunto, que Kawall compartilha com o visitante enquanto tira seus discos favoritos das prateleiras. “Uma vez, consegui ser fotografado com todo o ministério de Juscelino Kubitschek”, diz, enquanto põe para tocar um trecho em que o presidente fala sobre os seresteiros da cidade natal, Diamantina, em Minas Gerais ( > Ouça ).

Às vésperas de se aposentar – Kawall trabalha há sessenta anos, é assessor de imprensa da Academia Paulista de Letras, mas promete que 2007 será seu último ano na função – o dono da vozoteca queria poder se dedicar totalmente a pesquisar novas aquisições para a coleção. Especialmente o que diz respeito à cultura brasileira que, aliás, concentra alguns dos exemplares mais emocionantes de sua coleção: O poeta Manuel Bandeira recita seu Vou-me Embora Pra Pasárgada ( > Ouça ), Oswald de Andrade lê Erro de Português ( > Ouça ) e Cora Coralina declama Minha Cidade ( > Ouça ).

Para ouvir e saborear
Apesar do jeitão de museu da voz, a vozoteca não é especializada em itens raros e exclusivos. Boa parte de seu acervo é composto de discos e fitas de tiragens ordinárias. Mas, por se dedicar há quarenta anos a uma atividade tão pontual, Kawall acabou se tornando sinônimo de “colecionador de vozes”, e sempre ganha alguma coisa de presente – em geral, alguma raridade, como é o caso da voz de Santos Dumont gravada em Paris ( > Ouça ), que uma amiga lhe mandou de Nova York. Mesmo assim, exclusividade não é a praia deste colecionador peculiar. “Tudo o que tenho aqui está disponível para todo mundo”, diz. “Outro dia mesmo, emprestei cerca de 80 itens para o pessoal da Secretaria Muncipal de Esportes, que está montando o Museu do Futebol no Estádio do Pacaembu”.

Uma de suas gravações favoritas é a de um gol de bicicleta marcado por Leônidas da Silva numa partida do São Paulo contra o Palestra, narrado por Geraldo José de Almeida para a rádio Record. Kawall tem tanto carinho pelo excerto que, nesta versão, acrescentou um preâmbulo de sua autoria ( > Ouça ). Mas, claro, contadas ao vivo as histórias são muito mais saborosas. Se você tiver sorte, pode ganhar ainda um caprichado café e um pedaço de bolo de maçã.


Ouça

> Carlos Lacerda em gravação de 1951
> Juscelino Kubitschek
> Minha Cidade, de Cora Coralina
> Vou-me Embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira
> Erro de Português, de Oswald de Andrade
> o discurso de Santos Dumont, gravado em 1930 (em francês)
> o gol de Leônidas


> Ouça outros trechos da vozoteca


Serviço

Video Vozoteca Luiz Ernesto Kawall
Praça Benedito Calixto, 86, apartamento 62, Pinheiros.
Fone: 3062-0015.
Aberto a visitas agendadas.



 
 
 
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