Portugal, delícia.. - parte 3 Além do rio
Estar além do Tejo é muito mais do que estar ao outro lado do rio. Ir para o sul é adentrar outro universo, outra dimensão. O clima muda, a paisagem se suaviza. Lisboa vai ficando linda e triste para trás, recortada com suas casinhas debruçadas sobre as águas despedindo-se generosamente (em Portugal , quando partimos de qualquer lugar, é sempre bom olhar pra trás. As paisagens à despedida, se mostram, ao longe, mais encantadoras do que na chegada...daí os fados?).
À frente, ondas cor de trigo se desenham, suaves. Pouco a pouco, este mar aparece salpicado de oliveiras alinhadas. suas folhas pequenas, em forma de olivas, se agitam cintilando o prateado de sua parte inferior. Olhando mais de perto, vemos seu tronco grosso e a forte ligação com a terra. Mais à frente, as árvores rainhas da região surgem sobre os montes, ao fundo, no topo das suaves inclinações: são os sobreiros - as árvores mais lindas do mundo. Troncudas, copas imperiais, conhecidas pela crueldade. Não dão a quem as planta, seu filho mais precioso: a cortiça. Exige paciência, cuidados e caprichos.
Estamos em terras dos montados, das bolotas, das azinheiras. Nestas herdades, as paredes são grossas e brancas, só elas capazes de sustentar o peso de tanto anos de existência e tradição. Os tetos são abobadados e o piso de pedra. No ar destas casas, um neblina constante paira e o aroma a lareira preenche o peito com ares de aconchego, de eternas boas vindas.
Américo Amorim é, sem dúvida, o grande pai destas belezas. O homem mais importante na produção de cortiça mundial (e um dos mais interessantes e brilhantes que já conheci) mostra suas casas e me convida a almoçar com sua família em sua casa no Porto. Por mais longe que esteja do Alentejo, perguntar-lhe da cortiça é fazê-lo sorrir "é minha origem," me contou. E também me afirmou "nestas minhas propriedades, eu deixo crescer as árvores, quero ver as florestas crescerem, não deixo que cortem uma".
Ainda no Alentejo, as lebres atrevidas nos cruzam pelas estradas velozes e violentas, os cachorros nos levam a visitar bodegas, onde se escondem ânforas que há muito perderam seus artesãos e os porcos pretos se fartam de comer bolotas.
O Alentejo é uma terra tão boa que ainda permite que seus velhos se sentem nas praças, a digerir o almoço e assistirem as primaveras escandalosamente fortes em cores cumprindo sua mais importante tarefa: permitir que a vida siga linda...
Confesso, no entanto, que ao partir do Alentejo, não olhei para trás. Não poderia suportar a idéia de que, em qualquer momento, aquelas paisagens pudessem ser mais bonitas. Se fossem, talvez não seria capaz de sair de lá nunca mais.







2 Comentários:
Que lindo ficou seu texto Alexandra, praticamente enxerguei o que viu por lá, realmente foi uma viagem incrível hein? Você merece, bjos.
obrigada, querido
um beijão
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