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Boteco Bohemia – ou o dia em que Bono perdeu a voz
 O Famoso Bar do Justo foi o grande campeão do Boteco Bohemia 2007: levou o primeiro lugar na categoria melhor petisco – com a cestinha de pernil – e o segundo, nos quesitos melhor atendimento e melhor forma de servir a cerveja. Outros bares premiados foram a Academia da Gula (segundo lugar em petisco, na foto), o Amigo Gianotti (terceiro lugar nas três categorias), o Barbirô (primeiro lugar em atendimento), o Penha-Lapa e o Miradouro, empatados em primeiro lugar na categoria melhor forma de servir a cerveja. Os resultados foram anunciados na festa de saideira, que aconteceu no fim de semana passado. Acompanho o Boteco Bohemia desde 2005 e estive presente nas três últimas edições da festa. Nesse período, percebi algumas mudanças tanto no conceito do festival como um todo quanto no astral da baladinha final. Cada vez mais, a festa de saideira se torna uma opção de programa para quem quer agito e cada vez menos é uma oportunidade de os fãs de comida de boteco experimentarem novos e criativos petiscos. A menos que você chegue cedo, não conseguirá circular com conforto entre os quiosques dos bares. Mas se o objetivo é a paquera e a pegação, vá em frente: chegue mais tarde e entre no clima de micareta. Deve ser por conta disso, penso eu, que os ingressos estavam esgotados para compra via internet desde a véspera. No sábado vi cambistas – eh, praga! – negociando entradas na rua, a poucos metros de policiais. Para resolver esse problema, já existe uma tecnologia que permite a venda de cupons nominais – como pude conferir na Copa do Mundo da Alemanha – mas a impressão que tenho é a de que nem mesmo o consumidor está interessado em tamanhos conforto e segurança. É preciso dizer, porém, que a festa foi bem organizada. Até o limite do possível, os muitos bares espalhados serviram a cerveja em boa temperatura, os shows foram pontuais e com ótima qualidade de som, o pessoal da produção e de apoio foi gentil e as providências sanitárias às quais os bares tiveram de cumprir foram exemplares. Quanto à seleção de bares participantes, este ano foi divulgada uma lista com 50 bares, dos quais 31 foram escolhidos por meio de votos na internet. Vai ver foi por conta desse "primeiro turno" de votação popular que ficaram de fora botecaços como o Mocotó e sua picanha de carne seca com chips de mandioca; ou o Bar do Magrão e seus pasteizinhos; ou ainda o Bar do Jô e suas codorninhas. No lugar dessas delícias, havia um festival de pasteizinhos e bolinhos sem graça, entre outros tira-gostos nada inspirados. Pareceu-me que estavam ali para cumprir tabela. Mas alguns bares levaram o evento a sério. Tão a sério que representantes de dois deles foram às vias de fato ao fim da noite de sábado, durante o acerto de contas do primeiro dia da saideira, quando o público já havia saído. Três testemunhas disseram ao BOTECLANDO que o chef de cozinha do Salve Jorge, conhecido como Bono, ofendeu e jogou uma guimba de cigarro no peito do dono do Bar Assembléia. Como troco, levou um soco e oito pontos na boca. Os briguentos foram exemplarmente proibidos de comparecer à festa no domingo, dia em que os representantes dos dois bares selaram a paz, intermediados pela equipe de organização, que garantiu o bom andamento da saideira. Em reunião realizada na tarde desta terça-feira, a Ambev decidiu estudar a possibilidade de incluir no regulamento da próxima edição do Boteco Bohemia uma cláusula que prevê a eliminação automática das casas que provocarem qualquer incidente do tipo.
Que país é esse?
E não é que o Renato Russo tinha razão?
Verdades irrefutáveis
Quem está na chuva é para se molhar. A cada dia que passa venho dedicando três ou quatro segundos de reflexão com adágios como esse, a ponto de sentenciar: os ditos populares são verdades irrefutáveis! Se contra fatos não existem argumentos, vou provar o que digo lamentando, desde já, o que aconteceu comigo dias atrás no Espírito Santo, um bar de que gosto, que tem um ótimo cardápio de pratos e acepipes portugueses. Não assines sem ler, não bebas sem ver: os garçons do bar poderiam aprender ao menos a segunda metade desse conselho. Pedi uma taça de vinho (R$ 16,00) para acompanhar um mexido de bacalhau, bom, aliás, mas fiquei surpreso quando o garçom veio até mim e colocou uma taça de tinto sobre a mesa, já cheia. Não trouxe, como manda a mais básica regra de etiqueta da enologia, a garrafa, nem permitiu que eu degustasse um pouco para que eu conferisse se havia algum problema com o líquido. Já que o que engorda o boi é o olho do dono, imagino que a falha tenha sido conseqüência da ausência do Luís Felipe, um entusiasta da bebida. Naquele dia, não o vi por lá. Tristeza, é verdade, não tem fim, mas felicidade, sim. Por isso, joguei-me assim mesmo à sorte do que me serviram e tratei de beber naqueles poucos minutos de satisfação (não consegui, desculpem, sentir-me assim tão feliz depois dessa, mas valeu a pena pensar na vida enquanto o vinho ia sumindo do meu copo). Mas como cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, sugiro então ao sommelier da casa que dê um treinamento específico à sua turma sobre serviço e etiqueta do vinho. Quem tem bom vinho, afinal, tem bons amigos.
Vai querer mais alguma coisa?
Ansioso para saber quanto faturou pelos 10 por cento e cansado após o dia de trabalho, o garçom chega à mesa e pergunta: – Vocês vão pedir mais alguma coisa? A cozinha está fechando. Alta madrugada, esse não é exatamente o boa noite que você esperava ouvir. Mas como a conversa costuma ser boa e nem sempre você leva o semancol no bolso, acaba tendo de pedir a saideira quando metade das gravatas-borboletas já está pendurada e a outra parte está acabando de suspender as cadeiras, pernas para cima, sobre as mesas. Claro, garçons têm de dormir ou mesmo aproveitar o restinho de noite que sobrou. São poucos, infelizmente, os bares que aderem ao sino que antecipa a última rodada, a exemplo do que acontece nos pubs britânicos. A tarefa do curfew, então, acaba ficando para a equipe de salão. O problema é “como” essa abordagem costuma ser feita. No Papo, Pinga e Petisco, por exemplo, ela beira a falta de educação: – Vocês não vão pedir mais nada da cozinha, né? – pergunta o que deve ser o dono, em tom impaciente, para não dizer intimidatório. Em menos de cinco minutos, você terá de responder a outra: – Vou servir a última cerveja e trazer a conta, certo? Como a peça dos Parlapatões estava bacana e o domingo será de sol, porém frio, é melhor não contrariar. Trata-se de um bar recomendável, sobretudo por que o ambiente é – veja só – acolhedor, porque o sanduíche de pernil é bem-feito e por que, corre a lenda, ali Elis Regina teria feito seu primeiro show em São Paulo, em 1964, quando a casa chamava-se Djalma’s. Mas não se atreva a chegar tarde. Mesmo que a porta esteja aberta. Papo, Pinga e Petisco - Praça Roosevelt, 118, centro, tel. 3257-4106. 19h/0h30 (seg. a qui.; sex. e sáb., 18h/2h30).
Reciclagem tem limite
Ninguém me contou. Eu flagrei: no Coppola Music (Rua Aspicuelta, 323, Vila Madalena, tel. 3034-5544), os funcionários do bar reaproveitam os copos de plástico transparente, que deveriam ser descartáveis. Depois de recolhidos nas mesas e balcões, são lavados na pia do bar, diante de quem quiser ver, e empilhados para secar. Tudo isso é feito, claro, quando a casa já não estiver tão cheia.
Hein?
Sempre achei um tanto quanto bizarra a opção de muita gente que, quando está a fim de paquerar, prefere ir a casas noturnas ou a bares mais barulhentos. Dá até para compreender a lógica da lei de oferta e da procura em lugares como esses, que costumam estar sempre cheios: se há muita gente falando, circulando, "xavecando", logo, a chance de ser bem-sucedido na paquera será maior, o que até, vá lá, chega a sublimar o efeito colateral do barulho. O problema é quando o bar resolve improvisar um palco num canto do salão, instalar umas caixas de som e convidar uma bandinha para fazer um som, sem dar a mínima atenção à acústica do ambiente. O que já não é tão bom para os ouvidos chega a beirar o insuportável. Passei por uma dessas na noite de domingo, quando fui ao Bar Aurora (Rua Atílio Innocenti, 277, Itaim Bibi, tel. 3078-6968). A casa estava cheia de gente, moças e rapazes com boa pinta, os garçons andavam entre as mesas -- ignorando os pedidos de alguns clientes -- e o som acústico que a tal bandinha levava no mal-ajambrado palco entrava por meus ouvidos de tal forma que eu mal conseguia escutar o que diziam as pessoas da mesa em que estava. Não discuto nem o repertório e a afinação dos músicos. Mas se um lugar se propõe a manter uma banda ao vivo, que faça, no mínimo, um tratamento acústico adequado.
Saideira, substantivo feminino
Para mim e para meus colegas da Máfia da Catcha - uma confraria que se encontra uma vez por mês, sempre em um bar diferente, com a nobre missão de avaliar cada um deles -, não há pecado maior para um bar do que o de recusar uma saideira. Que seja um copo de chope garotinho para ser dividido entre seis bebuns, mas que ela não seja negada. Pois no Canto Madalena (Rua Medeiros de Albuquerque, 471, Vila Madalene, tel. 3813-6814) eles negam. Veja, a saideira não é uma obrigação, um dever do bar com o freguês. Sei que muitos lugares a oferecem de acordo com o que o grupo de clientes desembolsa pela conta, mas essa, a conta, também não pode ser a única medida. O dono, o garçom, o maître (para os bares que o tiverem) devem reparar que há freguês que a merece pelo simples fato de ser, vamos dizer, um botequeiro de alma. Vejamos, se peço um cardápio e o estudo cuidadosamente, se peço uma sugestão -- esperando que o garçom seja sincero ao me recomendar algo --, se tomo um ou dois chopes, uma cachacinha que não seja a miserável Seleta, será que não mereço um chopinho de saideira? Ainda que seja num copo-garotinho? Um bom garçom deve imaginar que a alma dos sóbrios que reclamam educadamente pela saideira, quando entra naquele bar, pede licença, a bênção, só quer um afago. O garçom deve defender, junto ao patrão, a saideira a esse sujeito. Saideira é uma coisa boa, um ato de generosidade, meus amigos! Do contrário não seria um substantivo feminino.
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