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Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

Sobre cerveja nos estádios da Alemanha

E não é que minha irmã de vez em quando lê este blog? E não é que ela faz o papel de ombudsman? Sobre a informação publicada no post "O Tricolor Alemão e o Homem-Cerveja", segundo a qual a venda de bebidas alcoólicas nos estádios alemães é proibida, ela me corrige., Diz que neles é possível, sim, comprar cerveja. Na verdade, o estádio do St. Pauli é um dos poucos em que se pode levar o copo para a arquibancada. Envei um e-mail ao comentarista de futebol Gerd Wenzel, da ESPN Brasil, que prontamente respondeu ao blog:

"Caro Miguel,

provavelmente tenha havido uma falha na comunicação. Fato é que na Alemanha, uma das atrações dos estádios em geral são os bares e quiosques espalhados pelas dependências das arenas onde o consumo de cerveja e bratwurst (nota do blog: salsichão) é exaustivo. Provavelmente ela tenha se referido ao consumo de cerveja nas arquibancadas - aí, de fato, há restrições em alguns estádios.

Acontece que no intervalo das partidas, a torcida vai para os bares/quiosques, geralmente localizados nos anéis externos das dependências e enche o 'tanque'."


Camarões, cacau, chope e uma ‘alternada’


Passei boa parte da semana passada nos ares. E, graças a Deus, estou de volta à terra – quero dizer, neste momento estou na redação da Veja, no 19º andar do Novo Edifício Abril – para contar o que fiz e vi em Natal, Salvador e Curitiba.

Estive em Natal e Salvador para orientar o trabalho dos jornalistas que vão fazer a apuração e as reportagens sobre os estabelecimentos das respectivas edições que integram o projeto O Melhor da Cidade.

Em Natal, na terça à noite, dei uma escapulida ao Camarões Potiguar, eleito na edição passada como o melhor restaurante de pescado da região. Com um nome desses, é natural que o preparo do crustáceo, nas mais diferentes formas, seja a especialidade da casa: ao alho e óleo, à grega, à milanesa... Dizem até que, aos domingos, cerca de 1 500 clientes passam por lá para experimentar alguma receita.

Dispensei o couvert e pedi um pastelzinho de camarão (R$ 5,00). Num tamanho equivalente a um terço dos pastéis das feiras paulistanas, veio bem recheado, com catupiry, inclusive. A massa, porém, não era das mais sequinhas. Na seqüência, encarei meia-porção de camarão ao molho de alcaparras, acompanhada de um delicioso purê de mandioca. Meia-porção é modo de dizer, porque perdi a conta de quantos desses bichinhos haviam no prato.

Enquanto me empanzinava, fiquei observando um trio de senhores na mesa em frente. Um deles, 60 e poucos anos, gordo, olhou o cardápio de cima a baixo, chamou o garçom e soltou:

- O filé daqui é bom?

- Sim, muito bom, respondeu o garçom.

- Então me traga um, ao ponto para bem passado.

Na hora lembrei-me da reportagem de André Petry sobre Nova Orleans na Veja da semana passada, em que ele conta sobre a ocasião, pós-furacão Katrina, em que George W. Bush fez uma refeição num dos melhores restaurantes daquela cidade, famoso por seus frutos do mar. O presidente, é claro, encarou um bifão...

No dia seguinte, almocei no Paraíso Tropical (foto), em Salvador. Essa pitoresca casa do agrônomo e chef Beto Pimentel fica escondida numa ruazinha no bairro do Cabula. No local, em cujo terreno estão plantadas 6 000 árvores frutíferas de 123 espécies diferentes, já funcionou até uma rinha de galos. Alguns desses pobres coitados ainda ciscam ali, engaiolados.

O salão de refeições mais lembra uma varanda. Há duas fileiras de mesas, protegidas do sol, do vento e da chuva por cortinas, apenas. Foi ali que provei uma das famosas moquecas de Beto, temperadas com frutas. No lugar do azeite de dendê, inclusive, ele coloca o próprio fruto na panela de pedra.

Ao fim da refeição, é praxe: o garçom traz à mesa uma bandeja repleta de frutas colhidas no pomar do restaurante. Tem laranja, limas, limão, manga, melancia, abacaxi, jaca e até cacau.

Fazia anos que eu não encontrava um cacau ‘pessoalmente’. Juro que ainda não consigo entender como aquela delícia azeda, em forma de bola de rúgbi, gosmenta e recheada de sementes que têm o tamanho de um mentex, consegue ser transformada numa barra de chocolate...

Cheguei na quinta-feira à capital do Paraná, justamente para o evento de lançamento da edição de Veja Curitiba – O Melhor da Cidade. Assim que a bela cerimônia acabou, estiquei para o Babilônia Gastronomia & Cia, que faturou os prêmios de melhor restaurante variado e melhor fim de noite.

Aberto 24 horas por dia, esse restaurante com astral de bar tem pé direito alto e um mezanino que, numa das laterais, divide espaço com a bela adega. Como havia passado o dia em trânsito, decidi pular os petiscos e selecionar no vasto cardápio um ravióli de vitela com molho de funghi.

Já passava da 1 da manhã quando desembarquei no Aos Democratas para tomar a saideira. Este bar tem uma história bacana: foi aberto há cinco anos, com apenas cinco mesinhas. Na base do boca-a-boca da freguesia, a área da casa foi crescendo e hoje ocupa dois pavimentos de um imóvel de esquina. Ali só se fala em futebol – basta ver as camisetas de times penduradas nas paredes. A dupla bolinho de abóbora com carne seca e chope, de colarinho regulamentar, atrai a atenção dos clientes mais fiéis.

De volta ao hotel, sabia que teria pouco mais de duas horas de sono até tomar o avião para São Paulo. Seria, de qualquer forma, tempo maior que a imprevista meia hora que passei em Recife, logo no início da viagem.

Por causa da tempestade que caía sobre Natal, o piloto decidiu “alternar”, minutos depois do tradicional aviso: “tripulação, preparar para o pouso”. Ou seja, quando o avião já estava bem baixinho, deu meia-volta, botou força nos motores e subiu novamente, desta vez para reabastecer no aeroporto dos Guararapes. Quase, assim, uma arremetida.

Tenho certeza que meu cardiologista há de agradecer por todo vinho que tenho tomado recentemente.

Aos Democratas. Rua Doutor Pedrosa, 485, Batel, Curitiba, tel. (41) 3024-4496.

Babilônia Gastronomia & Cia. Alameda Dom Pedro II, 541, Batel, Curitiba, tel. (41) 3566-6464.

Camarões Potiguar. Rua Pedro da Fonseca Filho, 8887, Ponta Negra, Natal, tel. (84) 3209-2425.

Paraíso Tropical. Rua Edgard Loureiro, 98-B (segunda travessa à esquerda da Rua Nossa Senhora do Resgate), Cabula, Salvador, tel. (71) 3384-7464.

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

O Tricolor alemão e o homem-cerveja

No fim de semana começou a temporada 2008-2009 da Bundesliga, o campeonato alemão de futebol, que se divide entre a primeira e a segunda divisões.

E, meninos, eu estava lá, na arquibancada recém-inaugurada do estádio do St. Pauli, para o jogo de estréia do time da casa, contra o Osnabrück, pela segundona. Em 2010, o clube vai completar 100 anos e, nesse século de vida, passou pouquíssimo tempo entre os grandes do país.

Em uma nota anterior, eu disse que o clube é um misto de Juventus e Portuguesa. Preciso reformular essa definição, já que vejo um pouco de cada um dos times paulistanos na alma do St. Pauli.

As porções Lusa e palestrina, por exemplo, se devem ao fato de que seu acanhado estádio está incrustado num bairro próximo ao centro, acessível por metrô. Com a nova arquibancada (ingressos com lugares marcados a 38 euros), a capacidade passou para 24 000 pessoas – no jogo, que aconteceu às 18h de sexta-feira, havia 22 210 torcedores.

Essa gente toda reunida, num horário em que as pessoas deveriam estar indo ao bar para a happy hour e não a uma partida de futebol, lembra, devo admitir, a devoção que a Fiel torcida tem pelo Corinthians. Nem nos piores momentos – como o atual, hehe – os fãs desses dois times os abandonam. Aliás, o St. Pauli só não fatura mais com venda de camisetas e merchandising do que o todo-poderoso Bayern de Munique.

Além do nome, há outra coincidência entre o St. Pauli e o meu tricolor paulista: suas cores também são três, no caso, marrom, branco e vermelho.

Para entender a porção juventina, aqui vai uma inconfidência: assim como vi na Rua Javari, há cerveja à venda, com a diferença que na Alemanha o comércio é permitido. Meus amigos Dinho Luiz e Jones Rossi hão de lembrar do clássico Juventus e Nacional que assistimos uns dois anos atrás, numa manhã de domingo, e dos torcedores formando fila para comprar sua Antarctica (ou seria outra?).


O do St. Pauli, convém dizer, é o único estádio alemão que tem o aval para a presença de bebida alcoólica. Além de estar à venda nos bares das sociais, homens como este aí da foto circulam pela área de acesso à platéia carregando os barris de cerveja nas costas (3 euros o copo da Astra, patrocinadora do time).

Assistir a um jogo como esse é uma experiência e tanto. O St. Pauli entra em campo, perfilado, ao som dos sinos e dos acordes iniciais de Hell’s Bells, do AC/DC! A cada gol, o DJ do estádio coloca nas caixas de som o riff de Song 2, do Blur.

Até fecharem-se as cortinas, como dizia Fiori Giglioti, há emoção: aos 15 minutos de jogo o St. Pauli ganhava por dois a zero, mas o Osnabrück empatou. Aos 45 do segundo tempo, os visitantes quase marcaram o gol da virada, mas o homem do placar, acostumado com os revezes do time, não hesitou: tacou lá o 2 a 3.

Mas voltou atrás a tempo de corrigir e de comemorar, num dos bares da vizinhança, o glorioso 2 a 2.

Terça-feira, 12 de Agosto de 2008

Antes do amanhecer, tome um vinho

Ainda sobre Viena, fico com a impressao de que todas as reportagens que li sobre a cidade, a fim de obter dicas do que fazer por la, nao conseguem dar conta de descrever todo seu esplendor. Em geral recomenda-se ficar nao mais do que quatro dias na cidade e seguir para Innsbruck e Salzburgo ou partir para Budapeste e Praga, que sao capitais do leste europeu mais proxima. Foi o que fiz, mas vou falar de descobertas botequinescas desses dois ultimos destinos logo mais.

A quem vai a Viena, minha dica e para que o viajante passe numa locadora de DVD e leve para casa uma copia de "Antes do amanhecer". Nao vou fazer aqui uma resenha sobre esse belo filme, mas recomendo que seja visto na melhor companhia possivel, de preferencia tomando um bom vinho. Rodado em Viena, mostra lugares de visitacao obrigatoria e cantos a serem descobertos por acaso.

Tive apenas duas noites em Viena - poderia ter ficado uma semana la, facil, facil - mas aproveitei cada minuto caminhando, comendo, bebendo e visitando museus espetaculares. E como a sorte estava comigo, descobri um excelente wine bar, chamado Wein & Co.

O Wein & Co. divide-se em dois ambientes, sem contar a area externa, que estende-se pela calcada de uma rua que termina em frente a praca onde fica a Catedral de Santo Estevao (a Catedral da Se vienense). A esquerda fica a loja de vinhos, na qual e possivel comprar garrafas dos principais paises produtores (nao vi nenhum brasileiro, infelizmente). Um balcao divide essa area com a do bar. Ao fundo ha mesas mas a gracas e ficar ali no balcao ou numa das banquetas dispostas diantes da parede espelhada. Veem-se casais, gente que acabou de sair do trabalho e um ou outro turista (no caso, eu e minha namorada, pelo que percebi).

Todos com um copo de cristal na mao, bebericando uma das 35 - eu disse 35 - opcoes de vinhos disponiveis em taca do lugar: quinze brancos, quinze tintos e cinco espumantes e roses. O preco varia de 2 a 7 euros, o que acho perfeitamente aceitavel, dada a qualidade do que se bebe, a atencao dos garcons, que estao aptos a indicar e passar algumas informacoes sobre as bebidas, e ao servico, que inclui copos adequados (Spiegelau, se bem me lembro).

Enquanto bebi duas ou tres tacas, tentei imaginar uma casa como aquela em Sao Paulo, no centro da cidade. Que ficasse aberta ate depois da meia-noite, que fosse acessivel por metro ou onibus apos uma breve caminhada segura pelo entorno, para que se pudesse olhar com calma as belas construcoes vizinhas, que servisse vinhos bons vinhos em taca e a preco justo.

Sera possivel?

Wein & Co. Jasomirgottstrasse 3-5, Centro, Viena, tel. 00XX43 1 535 09 16, www.weinco.at

Domingo, 10 de Agosto de 2008

Wiener schnitzel made in... Viena!

Com tantos cafes, bares e restaurantes de culinaria internacional, cheguei a monumental Viena com a recomendacao de provar a mundialmente famosa torta zsacher, no cafe instalado no terreo do chiquerrimo hotel Sacher, que fica atras da Opera. Foi o que fiz e, sobre essa torta, nao achei nada de mais. Ok que nao sou assim tao fa de chocolate, mas fiquei com a impressao de ter degustado apenas um bolo bem feitinho, ligeiramente umido, preparado com massa pronta de caixinha. O chantilly que acompanha a fatia e o cafe espresso estavam bem mais saborosos.

Nos dois dias que teria ali, decidi, entao, dedicar-me a outro desafio: onde eu conseguiria comer um autentico "wiener schnitzel"?

Perdoem-me os puristas, mas esse delicioso prato e uma especie de versao tirolesa para o nosso bife a milanesa (ou sera o contrario?), feita com um finissimo bife de vitela.

A tarefa, que parecia dificil, tornou-se tranquila quando me dei conta de que a cem metros do meu hotel havia um lugar perfeito: o Zum Hagenthaler.

Nesse bar-restaurante que fica proximo a Westbahnhof (estacao de trem), as mesas do bier garten ja estao ocupadas antes das 11 da manha, acreditem, por fregueses tomando as primeiras cervejas do dia. Com o calor que faz em Viena no verao, nao e de estranhar...

A decoracao da casa lembra exatamente um chale alpino, tiroles, com mesas, cadeiras e balcao de madeira pesada. No centro do salao, a chopeira ocupa lugar de honra. O biergarten (no caso, uma calcada repleta de mesas) ocupa toda a area em frente ao bar e foi ali que me acomodei.

Enquanto nao vinha o wierner schintzel, diverti-me com um copo de bier von fass (cerveja da torneira ou, va la, chope). A Zwettler e a marca da casa, leve, mas para a segunda dose decidi experimentar a cerveja do mes.

Essa ideia, de cerveja do mes, e otima, ainda mais para quem, como eu, gosta de arriscar o gogo testando novidades. Tive sorte: tomei um copao de Schlagl, que, segundo li numa inscricao impressa no copo, existe desde 1580.

Alias, uma coisa bacana aqui na Europa, quem ja veio sabe, e que cada cerveja e servida em um copo personalizado, de desenho diferente um do outro. Achei a Schlagl mais encorpada, amarga e saborosa que a Zwettler (2,90 euros o copo de 500 ml de qualquer uma delas). Entre as melhores que ja tomei. Sera que meu amigo Edu Passarelli, superexpert em cervejas (recomendo uma visita ao seu blog), a conhece?

Quando o garcom - surpreendentemente, para os padroes europeus, os garcons desse bar sao simpaticissimos - chegou a mesa com o prato, agradeci por ter pedido apenas uma porcao de wiener schntizel (10,90 euros). A quantidade era suficiente para mim e minha namorada.

Para acompanhar a carne, arrisquei ainda uma taca de vinho da casa branco (2,50 euros) que, com sua boa acidez, equilibroiu a gordura da carne empanada.

E voltei lentamente para o hotel ja que a viagem seguiria no dia seguinte.

Restaurant Zum Hagenthaler. Wallgasse 32 A - 1060, Viena, tel. 00xx43 (0) 1 5964188, www.hagenthaler.at

Sábado, 2 de Agosto de 2008

Berlim, pela terceira vez

Diz o viajante profissional Ricardo Freire, colaborador da revista Viagem e Turismo e tambem blogueiro, que se voce voltar a uma cidade pela terceira vez, torna-se intimo dela a ponto de chama-la por voce.

Pois estive em Berlim pela terceira vez, durante quatro dias (perdao, leitores, mas as postagens nao estao acompanhando devidamente o ritmo da viagem. Estou de ferias, compreendem?), na semana passada. Dos lugares que ja visitei, foi o que mais me tocou. Conheci a cidade em 2003, na mesma viagem em que descobri Paris e Londres. E claro que me encantei por esses dois destinos, mas Berlim me pegou de um jeito, justamente porque eu nao esperava me deslumbrar.

Voltei em 2006, durante a Copa do Mundo, quando percorri a Alemanha de sul a norte a bordo de um motorhome, com meus amigos de faculdade Alexandre Scaglia e Beto Gomes. Viagem inesquecivel, em que assistimos a estreia do Brasil, comemorada num boteco ao lado do estadio olimpico no meio de um exercito de croatas bebados. Num exemplo de fair play, trocamos camisetas, contamos como se pronuncia alguns palavroes e tomamos muita, mas muita cerveja.

Desta vez fiquei hospedado no bairro de Kreuzberg, que e repleto de bares. Nas margens do rio Spree e seus canais (alias, como e que pouco se fala de que Berlim e uma belissima cidade cortada por canais?) ha alguns deles, assim como em vias importantes como a Oranienstrasse. Um bar ao lado do outro, um restaurante italiano colado num asiatico e assimpor diante. E uma especie de Vila Madalena.

E diferente de Prenzlauerberg, bairro que fica na area correspondente a da antioga Berlim oriental, e que vem sendo restaurado a uma velocidade incrivel. Velhos predios tornam-se apartamentos de luxo e pontos comerciais deteriorados dao lugar a cafes e bares charmosissimos que, aos domingos, ficam lotados de gente ja pela manha, para o brunch. Num acomparacao bem assim, assim, diria que o bairro tem um que de Jardins ou Higienopolis.

Nos quatro dias em que passei por Berlim, perdi a conta dos bares em que parei para uma cerveja ou mesmo um vinho. Em meio a eles, aproveitei para turistar tambem e dei um pulo na KaDeWe, uma megaloja de departamentos que fica na regiao da Ku`Damm, uma das vias mais movimentadas da cidade.

Antes que o leitor pense que vai ler dicas de descontos e liquidacoes de grifes, convem avisar que a missao do blogueiro ali era a de subir diretamente ao sexto andar, o piso gourmet.

Chamar aquilo ali de Piso gourmet e questao de modestia. Melhor propor o seguinte: imagine o Mercado Central de Sao Paulo, com seus boxes de frutas, frios, peixes. Pense agora que as dasluzetes passaram por la e fizeram uma megafaxina, deram um banho de esguicho e de loja nos boxes, nos donos e nos funcionarios desses boxes.

E mais ou menos essa a impressao que se tem do sexto andar da KaDeWe. Ha corners de vinhos (tem do brasileiro Miolo Lote 43 ao Chateau Petrus), tres ou quatro boxes de frios e salsichas de todos os tipos, prateleiras e mais prateleira de cervejas, acougue, peixaria, produtos como caviar, especiarias e bares, claro.

Um deles e um champanhe bar da Moet Chandon. Ha tambem um sushi bar, tentei parar no vizinho, um oyster bar (especializado em ostras) mas nao via uma banqueta vazia; passei rapidamente por um bar especializado, acreditem, em lagosta; e parei para tirar uma foto diante do bar do famoso chef, que virou marca, Paul Bocuse (sobre as fotos, vou posta-las posteriormente, quando voltar ao Brasil, ja que escrevo sempre de internet cafes e nao tem sido facil baixar as imagens por aqui).

Como um bom mercadao, uma multidao circulava pelos corredores e por esses bares. Faltava pouco menos de meia hora para a loja fechar e, em vez de ter de beber algo correndo, parei na secao de bebidas para viagem, comprei uma garrafinha de espumante, abri ali mesmo e desci as escadas rolantes tomando uns goles enquanto a meu lado descim alemas carregando sacolas Dolce & Gabbana, Gucci, Prada...

KaDeWe. Tauetzienstrasse, 21. Tel. (00XX49) 302189851, www.kadewe-berlin.de

Sábado, 26 de Julho de 2008

As garçonetes do Café Paris

Elas não deslizam de patins pelo salão do bar nem usam maiôs e saiotes como as garçonetes do Hooters. Duvido que tenham posado nuas para a Playboy, caso das hostesses do Na Mata Café. Improvável que, para servir pratos, bebidas e carregar bandejas, tivessem de apresentar seus books ao gerente. As garçonetes do centenário Café Paris, que existe desde 1882 numa rua próxima à prefeitura de Hamburgo, não tem os traços da Ana Paula Arosio nem o corpo da Juliana Paes. E esqueça, leitor: estão longe de ser exemplares daquela linha de montagem de onde saíram über models como Heidi Klum ou Claudia Schiffer.

Ainda assim – ou por não corresponder a nenhuma dessas expectativas – são lindas. Cada uma a sua maneira, tornam-se mais belas ainda quando se deixam notar por seus (perdão, leitoras) defeitos.

Uma delas, a que me emprestou a caneta para que eu tomasse as notas para escrever este post, vê-se logo, deve ter problemas com a balança. Coisa pouca, com a qual não deveria se preocupar. Ao deixar o primeiro copo de Duckstein (cerveja do tipo altbier, ou seja, de alta fermentação, cor vermelha), sua colega sorriu e por um segundo vi uma pedra brilhante colada num dos dentes caninos.

Magra, frágil, com um pescoço quase tão longo como o da Olivia Palito e dona de olhos grandes, arredondados e que se destacavam no rosto branquelo, a terceira garçonete, que me trouxe a segunda cerveja, o café e a conta, pareceu-me a mais graciosa de todas.

Por seu nariz, digamos, bem proeminente, se fosse retratada em uma pintura, pode ser que o artista chegasse a pensar que errou a pincelada logo ali, no meio do rosto dela. Se fosse um gênio como Vermeer, saberia que estava diante de sua moça com brinco de pérola.

Café Paris. Rathaustrasse, 4, tel. 00XX49 0403252-7777.

Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

Hamburgo - primeiras impressões





Levei pelo menos 24 horas para, enfim, tomar o primeiro copo de cerveja em Hamburgo. Na segunda-feira, dia em que cheguei à cidade, não quis saber de sair durante o dia. Fiquei babando sobre meu sobrinho Torben, que nasceu há dois meses e pouco.



À noite, caminhei pela vizinhança da casa de minha irmã, que não poderia morar num lugar mais representativo do que é esta cidade: ela vive num apartamento no bairro de St. Pauli, a dois quarteirões do rio Elba. O belo prédio de tijolos à vista em que fica o apê, aliás, foi sede da cervejaria Astra. Sinto-me como se estivesse entre a Vila Madalena (St. Pauli) e Puerto Madero (o cais cheio de cafés, mas nada charmosos, na margem do rio). A Reeperbahn está a 3 minutos deste computador, com suas dezenas de bares, cafés e sex shops. Essa rua, conta-me meu cunhado, é a mais famosa da Alemanha, por sua história ligada à boemia e por seu público punk e suspeito.



St. Pauli tem um time do coração, St. Pauli, que já chegou a disputar a série A da Bundesliga, mas há anos não sai da segunda divisão. Seu estádio é acanhado, e um meio-termo entre a Rua Javari e o Canindé. Por isso, é inevitável a comparação desse clube com a Lusa ou o Juventus. É o primeiro time de alguns locais e o segundo no coração de todos por aqui. Semana passada, para comemorar a inauguração de uma nova ala do estádio, jogou um amistoso contra a forte seleção de Cuba. Ganhou de 7 a 0…



A primeira cerveja, eu dizia, só tomei ontem, mas não em St. Pauli. Durante um passeio pela região do porto, esticamos até o bairro Português e sentamos numa mesinha na calçada em frente ao bar Rei dos Presuntos. O garçom iraniano que falava português serviu-me uma tulipa de Holsten, uma marca local. É uma cerveja amarga, mas não tanto quanto a Astra (da qual tomei duas garrafinhas ontem à noite, em casa) nem como a Jever, originária da cidade de… Jever. Aqui é fato comum que cada cidadezinha ou bairro tenham uma bebida com seu próprio nome.



Provei a Jever no bar Jimmy Elsass, que fica numa esquina do bairro de Sternschanze, com suas confortáveis casas de dois ou três andares. A Jever tem sabor de malte tostado, lembrou-me amendoim – tem algumas garrafinhas na geladeira, mais tarde vou tirar a prova para ter certeza se é isso mesmo.



Esse aconchegante bar, que parece uma taverna, é especializado em flammkucher, uma espécie de aperitivo alsaciano que lembra uma pizza de massa ultrafina. Pode ter, portanto, diferentes coberturas. Escolhi queijo de cabra com presunto da floresta negra e, para acompanhar, um vinho genérico da uva riesling, seco e que fez bom papel.



Na volta para casa, caminhamos uns 40 minutos. Em seu carrinho, o pequeno Torben vinha dormindo enquanto o pai cantava uma versão daquelas canções que turmas de amigos boêmios adoram entoar, que dizia mais ou menos assim: “Não existe cerveja em São Paulo… Não existe cerveja em São Paulo…“



Tudo bem que estamos na Alemanha, mas daqui a uns dezoito anos o pequeno Torben poderá ver que seu pai está um tanto equivocado.

Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

De hannover para Hamburgo



A partir deste momento, o blogueiro entra em férias e retorna ao trabalho no dia 18 de agosto próximo.

Nesse meio tempo, tentará postar alguns textos dos bares que encontrar pelo percurso entre Hamburgo, Berlim, Praga, Piemonte e outras paragens. Quando possível, acrescentará fotos.

Antes, porém, vale dizer que a saideira aconteceu, apropriadamente, no Zur Alten Mühle, taverna na qual é possível tomar um dos três ou quatro melhores e mais bem tirados chopes de São Paulo.

Acomodei-me numa mesinha de canto porque o balcão estava cheio, mas gostei de observar o lugar por essa perspectiva diferente. Fazia mais de ano, certamente, que não me sentia acolhido por aquele ambiente de sotaque e ar montanheses, com ripas de madeira maciça no teto e nas colunas.

Pratos alemães, sopas e delícias como a porção de bolinhos de carne com gorgonzola estão no cardápio que, entre as bebidas, traz outras opções além do chope. Mas chope é o que você deve pedir. Com pressão e temperatura equilibrado, o líquido vira brilhando até você dentro de um copo do tipo hannover, aquele mais bojudo e que tem pezinho.

Bis später!

Zur Alten Mühle
Rua Princesa Isabel, 102
Brooklin, tel. (11) 5044-4669.

Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

Três gotas são três gotas são três gotas



“Por que seus dry martini são sempre idênticos?”, perguntaram certa vez ao lendário barman Harry Craddock, do The Savoy Hotel, em Londres. Ele respondeu: “Porque há vinte anos minha garrafa de vermute é a mesma.”


Se este diálogo octagenário aconteceu mesmo ou não, eu não sei. Mas dá para ter uma idéia da longevidade de uma garrafa de vermute na prateleira de um bar. Se um dry martini leva 100 mililitros de gim, três gotas de vermute é o máximo que uma taça deve ter desse ingrediente.


Pois no Dry, a primeira garrafa de Noilly Prat se foi após 4 meses. Pelas minhas contas, o grande Kascão, barman desse bar instalado na esquina da Padre João Manuel com a Tietê, preparou no período 5 000 dry martini. Kascão, como todos os grandes barmen, costumam pingar 3 gotas de vermute para completar o drinque mais famoso do mundo.


Para calcular o volume de uma gota de vermute, fiz uma experiência muito simples: desci ao ambulatório do edifício da Editora Abril e pedi à enfermeira que introduzisse três gotas de um remédio qualquer em uma seringa de aplicação de insulina, de 1 mililitro. Verifiquei que as três gotas alcançaram 0,13 mililitro. Considerando uma margem de erro, arredondei para 0,15 mililitro, o que dá 0,05 mililitro por gota. Como o conteúdo líquido de uma garrafa do vermute Noilly Prat é de 750 mililitros e uma gota de vermute tem 0,05 mililitro, logo, em uma garrafa há 15 000 gotas de Noilly Prat.


Ou seja, 5 000 dry martinis em 4 meses é muita coisa. Mestre Derivan, barman do Esch Café e a maior autoridade em coquetelaria no Brasil, garante que sua garrafa de vermute, que está meio cheia e meio vazia, é a mesma há mais de um ano. Ele também pinga três gotas no seu drinque, assim como Souza, que só abriu a segunda garrafa no Veloso depois de três anos.


Existe um provérbio, conta-me aliás o Souza, segundo o qual um apreciador de dry martini deve ter em sua casa uma garrafa de um bom gim e outra de um bom vermute – o conteúdo dessa última, porém, jamais deve chegar ao fim.


Kascão e seus dry martini não são as únicas atrações do Dry. Na verdade, sua genialidade se revela na criação do baby dry, versão miniaturizada do drinque mais famoso do mundo. Com o perdão da palavra, e em tempos de lei seca, esse negócio é um veneno. Dias atrás, uma segunda-feira, eu e meu amigo Fabrício perdemos a conta de quantas doses tomamos – o meu prejuízo, por exemplo, bateu nos três dígitos. Se cada baby dry sai a R$ 17,00... sim, tomei seis baby (céus!).


Roberto Suplicy, um dos sócios do bar, não se limita a ser um anfitrião. Sentado num canto do balcão, o velho boêmio diverte-se manipulando o mixer de I-Pod que trouxe de Miami – sim, se você levar o seu no bolso, pode atacar de DJ. (Valeu, Fabra, pelo bis de Over The Hills and Farway...) Rocha, o fiel escudeiro de Roberto e ex-barman do Supremo, hábil preparador de manhattan, é quem divide o balcão com Kascão, sempre impecável sob seu summer jacket e camisa de piquê.


A menos que você não abra mão de se acomodar numa mesa, ou que esteja acompanhado ou queira encontrar belas companhias, deve entrar, pegar sua comanda e parar no balcão. É verdade que a zoeira acontece mesmo lá mais para o fundo do bar, capitaneada por habitués como modeletes, boyzinhos e Pereios. Mas para quem andava órfão, como eu, de um bom balcão para pensar na vida, o do Dry vale pelo conforto de um colo.


Dry. Rua Padre João Manuel, 700, Jardim Paulista, tel. (11) 3729-6653.