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Comida de passarinho
Neto e filho de mineiras, confesso que demorei algum, na verdade muito tempo para criar coragem e experimentar algumas receitas que via prepararem minha vó Leonor, a tia Alicinha e a mãe de alguns amigos no ano em que morei em Contagem, cidade que está para Beagá assim como Osasco está para São Paulo.
Em terrenos baldios das ruas de terra do bairro, depois da chuva, a diversão da turma era caçar tanajura. Entrávamos no mato carregando latas de óleo vazias e só voltávamos para casa quando conseguíssemos enchê-las dessas formigas graúdas e bundudinhas. Chegando em casa, a mãe dos meus amigos até convidava para provar o traseiro torrado desses bichinhos (na verdade, são fêmeas!), preparadas com farinha de mandioca e arroz, mas... preferia mesmo voltar para ver minha vó tirar do forno o pão de queijo quentinho e corado.
Vó Leonor que, quando inventava de fazer dobradinha, putz, deixava a casa inteira com aquele cheiro azedo, intenso, horrível da tripa cozinhando na pressão. Mimado, eu pedia que fritasse um bife e a situação estava resolvida. Mal sabia eu que passaria a gostar do prato, ainda mais de ter provado uma cumbuquinha um tempo atrás no Bar do Caldo (o Bar do Nei, para os íntimos), ali no Mandaqui.
Pois na segunda-feira à noite, durante uma breve passagem por Belo Horizonte, só tive tempo de correr até o Salsa Parrilha, bar no bairro Santo Antônio apontado como o melhor para petiscar na edição passada de VEJA BELO HORIZONTE.
Além de fazer uma seleção dos acepipes frios expostos no balcão (R$ 45,90 o quilo), não dispensei o revigorante caldo de canjiquinha mineira (R$ 6,00) que aquecia sobre a mesa. Não se engane quem estiver achando que estou falando daquele grão de milho branco cozido, normalmente servido doce, com leite e leite de coco.
Estou falando de canjiquinha, que vem a ser o grão de milho triturado, a popular quirera, vendida em mercados como comida de passarinho.
Na hora em que vi aquele caldo engrossado borbulhando na panela de barro, imediatamente lembrei do magistral almoço da semana passada na casa das doces Mazzô e Aninha França Pinto, mãe e filha, a quem tive a honra de ser apresentado por minha namorada. À mesa foi Mazzô, cozinheira abençoada, mineira, é claro, quem discorreu sobre a procedência desse ingrediente ao servir uma cumbuquinha a cada um dos comensais.
Se naquele almoço a educação e a vergonha me impediram de repetir o prato, ainda que a anfitriã insistisse para que o fizesse, no Salsa Parrilha não deixei barato.
Da próxima vez vou ser menos mineiro, certo, Mazzô?
Bar do Caldo. Rua Judith Zumkeller, 152, Mandaqui, São Paulo, (11) 6203-5475.
Salsa Parrilha. Rua São Domingos da Prata, 453, Santo Antônio, Belo Horizonte, (31) 3225-7758.
Uma cerveja made in... Havaí?
Esta semana está sendo uma daquelas ocasiões mais do que especiais para quem gosta de cerveja. E, sem muita enrolação, vou dizer o porquê: já na segunda-feira, o Melograno, na Vila Madalena, recebeu três barris de 50 litros da inigualável Urquell. A quem não estiver ligando o nome à pessoa, basta dizer que esta é a cerveja-símbolo da República Checa, país que apresentou ao resto do mundo as cervejas do tipo pilsen (a Brahma nossa de cada dia, por exemplo, é uma pilsen). Pilsner, aliás, é uma região localizada a sudoeste de Praga, no meio do caminho para a Áustria e a Alemanha.
No ano passado passei por Praga, infelizmente não fui a Pilsner, mas lembro que em quatro dias tomei pelo menos umas dez canecas dessa cerveja – e ainda dei um jeito de esconder umas garrafinhas na mala... Durante alguns anos a Zahil, importadora paulista de vinhos, trazia o rótulo diretamente do leste europeu.
Infelizmente os três barris servidos no Melogranodevem estar sequinhos a esta altura porque foram abertos apenas para um encontro com representantes do consulado checo.
A boa notícia é que o bar inaugurou uma série de eventos mensais dedicada a cada país notadamente reconhecido pela produção da bebida. Para o 14 de julho, data que marca a queda da Bastilha, está prevista uma degustação de rótulos franceses.
Na noite de ontem foi a vez de o Frangó colocar para gelar algumas garrafas e latas de produçaõ artesanal apresentadas pela comitiva liderada por Bob Pease, vice-presidente da Associação Americana de Cervejeiros (Brewers Association of USA) e da Associação dos Produtores de Lúpulo dos Estados Unidos.
Chamou a atenção a profusão de marcas do tipo pale ale e IPA (India Pale Ale), que parecem ser, aliás, as categorias de cervejas mais promissoras nos EUA.
Essas cervejas costumam ser amargas, uma consequência da presença marcante de lúpulo em sua composição. No aroma de muitas delas, percebi notas florais (mais) e frutadas (menos). Com teor alcoólico médio entre 6,2% e 7,5%, as amostras tinham em geral cor âmbar a cobre.
A maioria dos rótulos, aliás, veio dos estados do Colorado (como a Titan, para mim a melhor, aromática, 7,1% de álcool), Califórnia (Boont Amber Ale, do produtor Anderson Valley, seca, passagem breve pela boca) e Oregon ( Rogue Dead Guy Ale, amarga sem incomodar, com personalidade, mas aroma tímido).
Incrível, porém, foi ver que até no Havaí há cerveja das boas. Com nome mais que apropriado, a Big Swell IPA, feita em Maui, tem 6,2% de álcool, aroma de frutas, lúpulo equilibrado e amargor sem ser agressivo.
E para quem acha que a viagem ao mundo das cervejas acabou aqui, vai a dica: o All Black estica até 31 de julho o seu festival de cervejas latinas. Da mexicana Dos Esquis (R$ 7,50) à Colorado Demoiselle (R$ 19,00), há rótulos da Argentina e do Uruguai.
All Black. Rua Oscar Freire, 163, Jardim Paulista, tel. (11) 3088-7990.
Frangó. Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, 168, Freguesia do Ó, tel. (11) 3932-4818.
Melograno. Rua Aspicuelta, 436, Vila Madalena, tel. (11) 3034-1837.
O vinho da Copa
 Se as garrafas já estivessem à venda por aqui, este blogueiro recomendaria que brindássemos com o vinho oficial da Copa de 2010 a cada um dos 3 gols que a Seleção Canarinho marcou ontem contra a Itália. Elaborados na África do Sul pela vinícola Nederburg, o branco, o tinto e o rosé Twenty10 devem ser lançados em agosto num evento no Museu do Futebol (a confirmar). Os rótulos serão vendidos ao consumidor por R$ 35,00 cada um, importados pela Casa Flora (www.casaflora.com.br). Não se ouve falar tanto em nosso mercado das etiquetas vindas do país-sede da próxima Copa do Mundo (se compararmos com a quantidade de argentinos, chilenos, portugueses, italianos e franceses), mas as principais importadoras brasileiras mantêm boas opções sulafricanas em seus catálogos (confira alguns endereços no blog do vinho de veja.com). Oitavo maior produtor de vinhos do mundo, a África do Sul é famosa por cultivar as uvas chenin blanc (branca) e pinotage, uma variedade tinta. Durante o regime do apartheid o país sofreu, merecidamente, sanções internacionais e o produto não podia ser exportado. Não havia quem quisesse comprar. Com a chegada de Nelson Mandela ao poder, em 1994, a indústria do vinho ganhou impulso. Um ano antes, quando Mandela recebeu o Prêmio Nobel da Paz, celebrou a conquista com um exemplar da região da Península do Cabo. Feitos com a uva cabernet sauvignon, o tinto e o rosé Twenty10 podem acompanhar bem petiscos como frango assado, uma boa bisteca e queijos como parmesão e brie. Já o branco, sauvignon blanc, deve ir bem com lulas no bafo, pro exemplo. Para o ano que vem, lembre-se dessas dicas quando estiver – se Deus quiser! – diante da TV pronto para comemorar os gols de Luís Fabiano, Kaká & cia.
PSC
Caros leitores: Faz uns cinco minutos que o Boteclando está no Twitter. Bom fim de semana.
Em Maceió: acarajé baiano, pizza e chope paulistas (ou réquiem tricolor)
 Pode ser apenas uma primeira impressão, mas nos dois dias que passei em Maceió, de domingo a terça, notei a presença de muitos casais, jovens casais, caminhando pra lá e pra cá na belíssima orla, da Pajuçara a Jatiúca. É provável, portanto, que a capital alagoana seja uma espécie de meca brasileira dos casais em lua-de-mel. Se minha tese pudesse ser confirmada por dados estatísticos, a cidade mereceria o título, pois atributos não lhe faltam: mar verdinho, temperatura média entre 25 e 29 graus a uma semana do inverno, com sol a maior parte do dia, e um clima algo sossegado. Como eu não estava por ali em lua-de-mel, mas, sim, por causa de trabalho, tratei de aproveitar o tempo livre para calar algum lugar em que pudesse provar alguma coisinha da gastronomia local. Acabei, na verdade, experimentando três legítimos exemplos da culinária e da boemia forasteira. Na noite de domingo me atraquei com um acarajé no Akuaba. Com todo respeito às soteropolitanas Dinha (que Oxalá a tenha) e Cira, o quitute dali não faria feio diante do delas. Nesse bar-restaurante instalado a duas quadras da praia, o bolinho tem uma circunferência do tamanho da palma da mão e vem bem apresentado, numa bandeja, ao lado dos pertences. Camarão defumado, vatapá e caruru e uma pimentinha bem boa chegam à parte, para que o próprio comensal o tempere. Por R$ 4,00, estava bom demais! Perfeito para ser dividido por duas pessoas, como entrada. Dali segui para o Armazém Guimarães, pizzaria local que exportou sua expertise para Recife. Num clima de bar e aquele zunzunzum de casa da nonna, encarei uma pizza brotinho light (no cardápio constavam 300 calorias, de peito de peru, R$ 11,90) acompanhada de uma taça de Paso El Portillo (R$ 9,00), um vinho branco argentino fresquinho – sem trocadilhos. Caiu bem como parceiro para fazer matar o tempo. Na noite seguinte baixei no Alagoana Casa de Chopp & Botequim (foto). Vencedor da categoria chope na edição passada de VEJA MACEIÓ, o bar pertence a Cadu Gardel, empresário que comanou casas de sucesso na Vila Olímpia (bairro paulistano que já foi dominado por casinhas, depois por bares e hoje por prédios comerciais monstruosos), como o Rabo de Peixe e o Moça Bonita. Para minha surpresa, Gardel conseguiu levar o know-how para esse local. Arrisco dizer que é o chopinho mais bem tirado do Nordeste. Com temperatura e colarinho ideais, o líquido dourado e cremoso vai à mesa numa caldeireta idêntica à do bar Amigo Leal, outro símbolo de SP. Isto é: o copo é mais alto e mais longilíneo que o usual. Minha intenção era tomar dois copos e voltar ao hotel. Quando me dei conta, percebi que uma roda de samba e choro se formou, em plena segundona, ali numa mesinha de canto. Em volume e cadência adequados, o quarteto de cavaco, violão, atabaque e pandeiro foi despejanto Paulinho da Viola, Jackson do Pandeiro e outros lordes, entre eles, Paulo Vanzolini que, aliás, é tema de um documentário que está em cartaz. Como diz seu samba, é isso aí, Tricolor: “reconhece a queda e não desanima/ levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Akuaba. Avenida Álvaro Calheiros, 6, Mangabeiras, Maceió, tel. (82) 3325-6199. Alagoana Casa de Chopp & Botequim. Rua Deputado Luiz Gonzaga Coutinho, 125, esquina com a antiga Avenida Amélia Rosa, Jatiúca, Maceió, tel. (82) 3235-1678. Armazém Guimarães. Avenida Doutor Antônio Gomes de barros, 188, Jatiúca, Maceió, tel. (82) 3325-4545.
Brasil, 38 graus
 Um dia depois de encarar os 7 graus de Curitiba, desembarquei em Manaus sob amenos – amenos sim, pois estou levando em conta o fato de já ter visto os termômetros marcarem 37, 38 graus por lá – 32 graus. (Se um dia tiver de morar na capital amazonense e equipar minha casa, meus dois primeiros eletrodomésticos serão um frigobar para gelar a cerveja e um aparelho de ar-condicionado.) De mala e sem cuia, saí do aeroporto diretamente para o Choupana, um dos restaurantes mais famosos da cidade, vencedor da categoria por quatro anos seguidos. Minha ideia era me esbaldar com umas costelas de tambaqui. Ainda estão na minha memória as que comi – e pelas quais paguei a bagatela de R$ 5,00! – dois anos atrás numa das barracas do porto de Manaus. Mas, para meu profundo desapontamento, o Choupana só faz pratos para duas pessoas. Tentei argumentar com a garçonete que estava sozinho e perguntei se poderia pedir meia-porção, já que a inteira me custaria R$ 82,00. Ela disse que sim, mas o desconto seria apenas de R$ 10,00. Triste, desisti e optei pelo filé de pirarucu com legumes, purê de batata e arroz (R$ 56,00). Estava Ok, já provei melhores ali mesmo em Manaus, logo saí frustrado. Deveria ter pedido uma porção inteira de bolinho de bacalhau, já que o que experimentei de entrada estava muito bom. De volta a São Paulo na sexta-feira, quase não acreditei quando vi um desses termômetros digitais de rua marcando 22 graus no comecinho da noite. Coloquei meus óculos e chequei: não, não estava vendo coisas. Já em casa, abri uma garrafa de Super Bock Abadia Gold (essa supreendente cerveja portuguesa já pode ser encontrada por aqui, na importadora Adega Alentejana – www.alentejana.com.br) e relaxei. Por via das dúvidas, não tirei o cachecol. E se o tempo virasse de novo? Choupana. Rua Recife, 790, Adrianópolis, tel. (92) 3635-3878
Brasil, 2 graus negativos
 Quarta-feira da semana passada, 7 da manhã. Assim que o despertador tocou, liguei a TV no Bom Dia Brasil e, bingo!, a Michele Loretto (a moça do tempo) deu a notícia, ao vivo: - Em Curitiba os termômetros marcam 1 grau, mas a sensação térmica é de 2 graus negativos. Como dali a duas horas eu tomaria um voo com destino à capital paranaense, tratei de desencaixotar o meu casaco de frio – na verdade, é mais velho do que eu, já que herdei do meu avô – e segui para o aeroporto. Pouco antes de aterrissar, o comandante reportou: - Tempo bom em Curitiba, 6 graus. Já que eu tinha saído de São Paulo com 10 graus, achei que não sentiria muita diferença. Que nada! Só tirei mesmo o casacão para conduzir a reunião com os jornalistas que desde já estão trabalhando na ediçaõ deste ano de VEJA CURITIBA “Comer & Beber”. Encerrada a reunião, eu tinha duas horas livres antes de seguir para o aeroporto e pegar o voo de volta à calorenta São Paulo. Por isso, decidi conhecer o Jacobina, bar que no ano passado foi o vencedor em três categorias: boteco, happy hour e para petiscar. O relógio marcava já 3 da tarde, por isso o salão estava bem vazio. Pude observar com calma os detalhes da decoração: máquinas de escrever antigas, disco de 78 RPM, vitrolas e todo tipo de tralha pendurada na parede, que torna o ambiente bem aconchegante, apesar do frio. A bem da verdade, o Jacobina não é assim um boteco. Não pude esperar para conferir a happy hour mas tive a chance de experimentar um dos itens da cozinha. E não me arrependi. Pedi um prato de baião-de-dois que estava absolutamente delicioso. Não cronometrei, mas a refeição chegou à mesa antes dos 8 minutos prometidos no site, caso sejam pedidos os pratos do dia. Queijo bem derretido, linguiça bem temperada, apenas o arroz estava um pouco além do ponto al dente – compreensível, já que era tarde. Do chopinho não guardo nenhuma lembrança marcante. Na verdade, eu já começava a me preocupar com os 30 e poucos graus que provavelmente iria encontrar em Manaus, no dia seguinte. Dessa breve experiência, conto num próximo texto. Jacobina. Rua Almirante Tamandaré, 1365, Juvevê, Curitiba, tel. (41) 3016-6111.
Na estrada real dos botecos
Depois de celebrar os dez anos de sucesso na capital mineira, o Festival Comida de Buteco chega pela segunda vez com sua caravana ao Rio de Janeiro. Tempo não vai faltar aos cariocas que quiserem nos próximos 27 dias – a farra começou na sexta-feira, 29 de maio –, testar e eleger os melhores botequins da cidade nos quesitos: qualidade do tira-gosto, temperatura da bebida, higiene e atendimento. Veja a lista dos concorrentes aqui. Entre os concorrentes deste ano, já tive a honra conhecer o Bar Brasil, o Bar Urca (leia o post “Ressaca? Não, não, nada disso”, de fevereiro de 2009), o Bracarense, o Jobi e o Bar do Mineiro). Espero poder visitar logo o Original do Brás, vencedor do ano passado e que participou, como convidado de honra, da saideira do Comida di Buteco de Belo Horizonte, no fim de semana de 22 a 24 de maio. Apesar do atraso, pelo qual me desculpo, não poderia deixar de falar desse evento que a cada ano fica mais legal. A Saideira é uma festa que reúne todas as casas participantes. Ao fim de três dias, são anunciados os vencedores. Desta vez, aconteceu no Centro Esportivo Universitário, uma ampla área anexa ao campus da UFMG, entre o Mineirão e a Lagoa da Pampulha. São Pedro ajudou e a origanização deu conta de atender, dentro dos conformes, aos 10000 visitantes que passara por ali em cada um dos três dias. Num clima pacífico, as barracas de cada um dos 41 botecos de Beagá puderam ser ser visitadas com calma (e alguma fila, nos mais disputados). De quebra, a moçada curtiu shows de Luiz Melodia, Moacir Luz e da atleticana Beth Carvalho. Ao desembarcar, segui diretamente do aeroporto de Confins, na tarde do sábado, para o evento. Muito bem recebido pelo anfitrião Eduardo Maya, fui guiado até a barraca do Bartiquim. Ali, comecei os trabalhos pelo rabo no mato (rabada com mostarda).  Em seguida, e logo ao lado, experimentei no Bar da Lora o potente “mercadão da lora ao molho dos bohemios”, um prataço de fígado com jiló, linguiça com couve e pernil com conserva.  Depois de uma volta de reconhecimento, parei no Agosto Butiquim para conhecer dona berinjela e seus dois quitutes (cubos de carne marinados, berinjela crocante e bolinhas de angu com taioba). Que me lembre, foi a primeira vez na vida que comi berinjela frita daquela forma – em palitos, como batatas do McDonald’s). Genial também a ideia das bolinhas de angu,  Antes de zarpar, tive tempo de dividir com a minha Camila, no Bar Sabor do Nordeste, uma porção de sinfonia nordestina, carne de sol na brasa com pirão de queijo (não sei não, mas poderia jurar que naquela hora eu estava em Recife...).  No dia seguinte – sem a chance de ser repreendido –, me atraquei com o tropeiro bandeirante do Bar do Dondinho (feijão tropeiro om couve).  Antes de correr para o aeroporto, experimentei ainda uma joia: o fondi mineiro do Boteco da Carne, uma porção combinada de linguicinha, pernil e almôndega molhados no angu molinho (para os paulistanos, angu = polenta) e queijo parmesão. Uma delícia!  Depois dessa epopeia, não, não sei quantos quilos fiquei mais gordo. PS: Ah, para conferir os vencedores, visite www.comidadibuteco.com.br
Lambrecagens
 Conversando há pouco com uma amiga pelo MSN, ela me conta que seu fihote, de poucos meses, babou biscoito de maisena sobre o teclado do computador. O pequeno desastre doméstico me fez lembrar do glutãozinho lambusado na foto do cantinho desta foto. Tirei-a, aliás, quase um ano atrás, quando estive com minha Camila na região do Lago Maggiore, na divisa da Itália com a Suíça. O tal Chez Manuel fica na encantadora Isola Dei Pescatori, uma das que ficam no meio do imenso lago. Paramos para o almoço e comemos uma memorável lasanha - com gosto daquelas que nossa mãe faz pra gente num domingão de São Paulo e Parmêra, precedida por um prato de presunto cru, daqueles de desmanchar no esfrega-esfrega entre a língua e o céu da boca. Viva!, por lá é primavera. Chez Manuel. Via Di Mezzo, 41, Isola Dei Pescatori, província de Varese, Lombardia, Itália, tel. 00XX39 032332534
Tarimba
Um brinde ao tarimbado vô Antoninho, com quem dividi algumas taças de vinho, uns copos de cerveja mas, infelizmente, nenhum dry martini.
Eu só queria tomar um chope
 Parafraseando meu amigo Luiz Américo Camargo, editor e colunista do caderno Paladar do Estadão, na noite de terça passada “eu só queria tomar um chope” depois do trabalho. Saí da redação lá pelas 11 da noite e resolvi conhecer a filial do Bar do Juarez aberta meses atrás em Pinheiros. A bem da verdade, a casa fica numa rebarbinha da Vila Madalena, numa região cercada de residências térreas, bem mais tranquila que o miolo da Rua Aspicuelta. É talvez a maior das quatro unidades (as outras ficam em Moema, no Brooklin e na Vila Olímpia), se não a mais ajeitada. Tem um salão interno e uma enorme área a céu aberto, com teto retrátil. Fazia uma noite bonita, embora não muito quente, e resolvi pegar uma mesinha no espaço descoberto. À medida que eu caminhava pelos diversos ambientes, até chegar à mesa, percebi que um garçom carregava uma bandeja com alguns copos de chope. De um lado ao outro ia, voltava e descarregava um copo numa e noutra mesa – sem que nenhum cliente o pedisse. Há quem veja nesse hábito um exemplo de eficiência no serviço. –Putz, como esses caras são rápidos! Meu chope mal acabou e eles já vieram repor!, dirão. Mas eu sou da turma que detesta esse expediente, pelo simples fato de que, depois de uns bons minutos levando o copo para lá e pra cá, a bebida vai chegar à mesa deteriorada: mais quente e sem o colarinho protetor. Dito e feito: assim que me sentei, o cidadão veio com o último copo da bandeja. Agradeci, disse que sim, queria um chope, mas não aquele. E pedi que fosse tirar um zerinho. Depois de umas doze horas na luta, e por R$ 4,50 a caldeireta, convenhamos, eu merecia um chopinho decente, não? Já acomodado, xeretei o bom cardápio e resolvi pedir um caldinho de feijão (inacreditáveis R$ 9,00!) e um sanduíche de filé com molho acebolado (R$ 13,00). Hummm!, pensei, o caldinho vai forrar o estômago e o sanduba vai ser um belo arremate! Que nada... Um quinze minutos depois, vejo à minha frente, ao mesmo tempo, os dois pedidos! Será que o garçom (era outro, por isso achei que não era nada pessoal) pensou que eu estava esperando alguém? Estaria eu com cara de quem voltou da guerra? Haveria um ectoplasma na outra ponta da mesa? Não, eu estava sozinho... Resultado: a cada duas colheradas no caldinho – de feijão preto, muito bom, e acompanhado de torresminho picado e quentinho –, eu tascava uma mordida no lanche, para que nem um nem outro esfriassem. Depois de mais um chope, veio a conta (R$ 34,10, já com os 10% do serviço) e a, por assim dizer, vingança: deixei R$ 34,00 contadinhos, com duas notas de R$ 2,00 e três de R$ 10,00. Bar do Juarez. Rua Deputado Lacerda Franco, 642, Pinheiros, tel. (11) 3578-5228. PS: quem circula pela Vila Madalena, aliás, deve ficar atento. A 1 da manhã de hoje, ao sair da redação, vi uma blitz na Rua Pedroso de Moraes, e motoristas sendo parados para fazer o teste do bafômetro. À Vila, vá de táxi, portanto.
Sobre chope e vinho
 – Cara, olha isso! Quantos bares abertos! E ainda é terça-feira! As exclamações acima foram ditas a este blogueiro, “ao vivo”, por Dirceu Vianna Jr. (na foto acima), o primeiro brasileiro a receber o título de Master of Wine na Inglaterra (o contexto das exclamações eu explico já, já). Convidado para comandar uma degustação na Expovinis, feira de vinhos que se encerrou ontem no Transamérica Expo, Vianna vive na Grã-Bretanha há duas décadas. Para ter uma ideia da façanha do paranaense, basta dizer que existem menos de 300 masters of wine no planeta. Ele alcançou o título após passar os últimos doze anos estudando tudo o que diz respeito ao vinho. Se fizermos uma comparação, esse é o tempo que alguém que deseja seguir a área acadêmica leva para concluir a graduação, o mestrado e o doutorado. Conheci Dirceu já no apagar das luzes do primeiro dia da Expovinis. Sobre o evento, disse-me que achou o nível altíssimo, tanto no que diz respeito à organização quanto à qualidade das bebidas apresentadas e ao portfólio dos expositores e importadores. Queixou-se apenas sobre o cigarro – fosse na Europa, seria proibido fumar. Faz sentido, afinal uma degustação de vinho passa pelos exames visual, olfativo e, aí sim, de paladar. (Que o Serra não nos ouça) Como ele teria não mais que duas horas livres por aqui, já que no dia seguinte embarcaria para Londres, sugeri que esquecêssemos um pouco de vinho e fôssemos tomar um chope. De pronto aceitou o convite e também juntou-se a nós o jornalista Nuno Vaz Pires, diretor da belíssima revista portuguesa Wine. Seguimos para a Vila Madalena e, mal estacionamos o carro na Rua Mourato Coelho, o neolondrino Vianna já arregalou os olhos com a movimentação do Posto 6, do Boteco São Bento e da Costelaria Patriarca. Torcedor do Arsenal e morador do norte de Londres, costuma cruzar com vizinhos como Rod Stewart e um dos caras do Oasis nos pubs perto de sua casa, no norte da cidade. Paramos primeiro no São Cristóvão para tentar comer uma alheira (Nuno imediatamente aprovou) e tomar um chopinho. Não havia mesas livres, por isso nos acomodamos na quina do balcão, ao lado da chopeira. Com tantos quadrinhos e fotos antigas de times e jogadores de futebol cobrindo as paredes, Vianna não sabia para onde olhar.  – São Paulo é demais! São Paulo é demais! A essa hora Londres já está dormindo. Era quase meia-noite e, como não havia lugar para sentarmos, caminhamos um quarteirão e meio até o Filial. Fomos recebidos pelo Ailton – sim, ele voltou mesmo! –, que imediatamente nos colocou numa mesinha bem bacana. Mais uma rodada de chope, duas canecas de caldinho de feijão, uma porção de bolinho de carne seca, dois espetos de picanha e uma dose da cachaça Claudionor. – Bem aromática! – desta vez o comentário foi de Nuno, torcedor do Porto. Contava-lhes rapidamente que o Filial costuma resistir até 4, 5 da manhã, ainda que não seja um fim de semana, quando chegaram dois distintíssimos exemplares da beleza paulistana e sentaram-se em banquetas ao lado do balcão. Ailton ganhou beijinhos no rosto e duas caldeiretas imediatamente desceram à frente das moças. Era apenas mais uma terça-feira em São Paulo. Filial. Rua Fidalga, 254, Vila Madalena, tel. 3813-9226. São Cristóvão. Rua Aspicuelta, 533, Vila Madalena, tel. 3097-9904.
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