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Um passeio pelo Masp depois que
Portinari e Picasso voltaram ao acervo

 

Por Orlando Margarido

 

 De bermuda e chinelos, o rapaz começa a descrever pelo celular detalhes da pintura “O Lavrador de Café”, pendurado imponentemente entre “A Estudante”, de Anita Malfatti, e “Cinco Moças de Guaratinguetá”, de Di Cavalcanti. Explica para o interlocutor que sua intenção era fotografar e enviar a imagem pelo telefone das duas telas roubadas do Museu de Arte de São Paulo no dia 20 de dezembro. Mas os seguranças proíbem fotos da obra de Cândido Portinari e dos demais 199  trabalhos do acervo expostos no segundo andar do Masp. A segurança está mais atenta depois do susto. Um turista desavisado tenta um clique, mas é delatado por uma visitante e interceptado. O jeito então é comentar ao vivo, como faz o garoto, que enxotado por um grupo estridente recém-chegado, sai apressado a procura da outra vedete involuntária da mostra. Agora é um Picasso, justifica ele na linha, e há ainda mais gente interessada numa espiada no “Retrato de Suzanne Bloch”,  a segunda jóia carregada pelos ladrões. Jóia? Uma senhora dá o seu veredicto: “essa mulher é muito feinha; deviam ter levado aquela”. Referia-se ao retrato, logo ao lado, da esguia Madame G. Van Muyden, pintada por Modigliani. Sua acompanhante relativiza: “mas essa tela de Picasso agora virou a nossa Monalisa, está tão disputada como no Louvre”. 

 

Cenas pitorescas como essas se sucediam na terça-feira passada, quando 10 000 pessoas já haviam estado no museu mais importante da América Latina desde sua reabertura quatro dias antes. A recuperação das obras furtadas virou acontecimento e teve um efeito similar às mostras de Monet e Renoir,  os impressionistas responsáveis por recordes de frequência no  Masp. Uma fila de meia hora serpenteava pelo vão livre até a bilheteria e travava novamente no elevador, onde, sinal dos tempos de crise, o ascensorista também recolhe os ingressos.

 

Sem qualquer aviso ou pergunta, o público era levado à sala do acervo para ver Portinari e Picasso. E se alguém estivesse interessado na retrospectiva do japonês Tatsumi Orimoto no subsolo do museu, que estreou no mesmo dia da reabertura? Sobe, para depois descer, ou que se manifeste antes. Num desses trajetos entre os andares, a preocupação da casa em reforçar a segurança é motivo de comentário entre funcionários. “Vão colocar câmera no elevador e no banheiro”, diz uma. “Não, mulher, no banheiro não pode, é proibido”, respondia outra. Na saída da visita, outra senhora demonstrava sua preocupação para a filha caso não tivessem encontrado as obras. “Já havia pensado em doar ao museu aquela pintura lá de casa, que está em cima do piano sabe, aquela azulzinha..."

 

 

 

 

 

...conta com 7 675 obras. Somente 200 ficam expostas, todas no segundo andar. O restante fica na área técnica do museu, um imenso cofre de banco com acesso restrito.

 

...é mundialmente conhecido pela quantidade de pintores italianos da Renascença e de impressionistas franceses.

 

...exposto está em constante mudança. Com freqüência, algumas obras da reserva técnica sobem para o olhar atento do público.

 

...passa por uma reorganização desde outubro de 2007, quando o Masp comemorou seus 60 anos. Até o final deste ano, o acervo será dividido em quatro áreas temáticas: A Arte do Mito, já em cartaz e que reúne obras sobre a mitologia greco-romana; A Natureza das Coisas, com paisagens e naturezas mortas, Olhar e Ser Visto, onde ficarão os retratos e auto-retratos, e A Arte Religiosa, com obras sacras.

 

...foi construído nos anos 40 e 50 graças a obstinação de seus fundadores, o empresário Assis Chateaubriand e o crítico italiano Pietro Maria Bardi

 

...tem como presidente, desde 1994, o arquiteto Julio Neves, autor de projetos como o da Daslu e o edifício espelhado anexo à Casa das Rosas

 

...tem eleições a cada dois anos. Presidente e conselheiros do museu (responsáveis por aprovar contas) são eleitos por 68 sócios vitalícios. Saiba quem é quem no Masp.

 

 

- Iniciação à História da Arte, de H. W. Janson e Anthony F. Janson, Editora Martins Fontes

- ... ismos – Entender a Arte, de Stephen Little

- A História da Arte, de E. H. Gombrich, editora LCT

 

 

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