
Por Marcela Besson
Tempero de mãe não tem igual. Esse é um dos gostinhos que ficam na boca depois de assistir a Volver (2006), de Pedro Almodóvar. O drama do diretor espanhol é uma de suas obras mais pessoais, na qual ele volta às origens ao ambientar a trama em La Mancha, interior da Espanha – mesmo lugar onde nasceu, em 1949. Em meio à poeira e aos ventos quentes típicos da região, uma enxurrada de segredos de família promete mexer com os espíritos de seus personagens, quase todos femininos. A comida, sempre farta e suculenta, aparece entremeada aos conflitos, ora como metáfora para a solução deles, ora como conforto quando parece impossível resolvê-los.
Difícil resistir ao encantos de Raimunda, papel de Penélope Cruz. Com a maestria de uma mãe, ela se divide entre os afazeres de casa e a preparação de jantares em um restaurante improvisado. Sob encomenda, alimenta trinta pessoas de uma equipe de cinema que está de passagem pela cidade. Mas a sensação é de que sempre cabe mais um. É pelas mãos de Raimunda que a maioria dos pratos do filme chega à mesa. Há tortillas, carne de porco, pudim de leite, amanteigados... Todos, claro, impregnados da cultura espanhola. Mesmo com uma destreza invejável no manejo das facas de cozinha, ela não tem, nem de longe, o perfil de uma chef. É, acima de tudo, maternal. Por isso, a culinária popular, de ingredientes simples e corriqueiros, ganha ares de banquete. Coisa de mãe.

No set de filmagem, Almodóvar contou com a ajuda de suas irmãs Maria Jesus e Antonia para elaborar as comidas que entrariam em cena. Aqui no portal, essa tarefa ficou com o chef espanhol Julian Gil Rivera, que, até outubro de 2008, comandava as panelas do restaurante Toro. Ele reproduziu algumas das receitas do filme: “Não há segredos nessa cozinha. Ela é barata e fácil de fazer em casa”. Em casos mais específicos, como o do amanteigado manchego, Rivera precisou recorrer aos conhecimentos de sua mãe, que mora na região de La Mancha. Doce coincidência. Em tempo: a contribuição da pesquisa histórica é do professor Ricardo Maranhão, da Universidade Anhembi Morumbi.
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