O que se pode fazer pelo museu que é um pratrimônio e orgulho dos paulistas, mas vive sem dinheiro
7 000 peças em seu maravilhoso acervo, avaliado em 1 bilhão de dólares, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) é dono de tesouros como uma coleção de doze telas do mestre impressionista Renoir e um lote de 73 peças das famosas bailarinas de bronze de Degas – obras, entre outras, constantemente requisitadas para exibições internacionais. Nos últimos tempos, entretanto, o Masp teve seu nome incluído em notícias vexatórias. O teto do magnífico prédio da Avenida Paulista projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi foi fotografado, no mês passado, com placas de alumínio soltas e quebradas. Em outubro, duas linhas telefônicas foram bloqueadas por falta de pagamento. Pouco antes, em maio, o pior de seus dramas: o museu sofreu um corte de energia elétrica por três dias em decorrência de uma dívida acumulada em sete anos de inadimplência com a Eletropaulo. Geradores entraram rapidamente em ação, mas não conseguiram evitar que a notícia repercutisse em jornais da Europa e dos Estados Unidos. Foi um rombo na reputação de uma instituição que depende de credibilidade para conseguir patrocínios e contratar exposições no exterior e também por aqui.
Marlene Bergamo/Folha Imagem
Placas de alumínio quebradas na cobertura do museu: obras não foram atingidas
Reprodução
A arquiteta Lina Bo Bardi nas obras do Masp, na década de 60: futuro cartão-postal
Divulgação
Sarcófago da mostra Egito Faraônico: diretamente do Louvre
Construído nos anos 40 e 50 graças à obstinação de seus fundadores, o empresário Assis Chateaubriand e o crítico italiano Pietro Maria Bardi, o Masp tem em seu comando, desde 1994, o arquiteto Julio Neves, autor de projetos como o da Daslu e o do edifício espelhado anexo à Casa das Rosas. A cada dois anos, presidente e conselheiros do museu (responsáveis por aprovar contas e decisões administrativas) são eleitos por um grupo de 68 sócios vitalícios. "São pessoas que fizeram doações ao museu", diz Neves. Apesar de ter enfrentado oposição na primeira vez em que se elegeu para a presidência – quando derrotou o bibliófilo José Mindlin por apenas um voto –, Neves não teve adversário nas seis eleições seguintes. "É que ninguém quer carregar esse piano", afirma (veja entrevista).
O piano ficou mais pesado depois do apagão do ano passado. Com a crise, diretores e conselheiros foram obrigados a se mexer para tentar salvar a imagem do Masp. Em agosto, Neves anunciou a contratação do crítico de arte José Roberto Teixeira Coelho para o recém-criado cargo de curador-coordenador, em reação às críticas de que o Masp teria estado sem curador nos últimos dez anos (o cargo era e ainda é ocupado pelo historiador da arte Luiz Hossaka, mais dedicado à conservação do acervo). Outra iniciativa foi encomendar à consultoria Deloitte um plano de ações que inclui a reformulação do modelo de gestão financeira. O trabalho deve ser concluído no segundo semestre. Veja São Paulo ouviu dezenove especialistas e mostra cinco medidas que, combinadas, ajudariam a solucionar o quebra-cabeça de problemas em que se transformou o Masp.
1. Profissionalizar a administração
Dirigido pelo arquiteto Julio Neves desde 1994, o Masp possui em seu conselho deliberativo trinta membros, eleitos a cada dois anos por seus 68 sócios vitalícios. Quase todos são nomes estrelados, como o cardiologista Adib Jatene, o banqueiro Antônio Beltran Martinez, o secretário estadual de Ensino Superior, José Aristodemo Pinotti, e o publicitário Nizan Guanaes. São essas pessoas que, valendo-se de suas boas relações, se encarregam – voluntariamente – de buscar recursos para o museu junto à iniciativa privada. No ano passado, isso significou 2,7 milhões de reais, quase um terço do orçamento total. Sem dúvida é uma fatia considerável do bolo, mas de um bolo com pouquíssimo fermento. Nos caixas do Metropolitan Museum, de Nova York, e da Tate Gallery, de Londres, entraram, respectivamente, 360 milhões de reais e 370 milhões de reais em 2006. Um outro exemplo sem gastar tantas milhas: a Pinacoteca do Estado, que contou com 13 milhões de reais no ano passado, metade desse valor subsidiada pelo governo. Boa parte dos museus internacionais é gerida por executivos e possui em seus quadros os chamados fund-raisers (captadores profissionais). O Guggenheim, que até 1992 contava com um único endereço, em Nova York, se expandiu desde que foi assumido, em 1988, por Thomas Krens, administrador formado pela Universidade de Yale. Hoje, soma cinco unidades (as outras ficam em Bilbao, Veneza, Berlim e Las Vegas). Os grandes museus, ao contrário do que faz o Masp, também disponibilizam em seus sites relatórios anuais com o balanço de contas e a descrição de suas principais realizações. "O Masp é uma caixa-preta", diz o secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil. Segundo ele, a prefeitura repassou para o museu 1,6 milhão de reais em 2006. "Não sabemos como o dinheiro é aplicado. Falta transparência."
2. Ampliar a área do museu e explorar seus novos espaços
Fernando Moraes
Edifício Dumont-Adams: a prefeitura vetou torre de 120 metros
3. Licenciar produtos com a marca Masp
Divulgação
Lojinha do MAM: 11% de sua receita anual sai das vendas de produtos como trenas e chaveiros (acima)
Fabio Mangabeira
Camiseta e bolsa da Pinacoteca: quinze itens produzidos desde 1999
Entre 2004 e 2006, a Tate Gallery, de Londres, faturou cerca de 3,8 milhões de reais apenas com a venda de produtos de merchandising – de artigos de papelaria desenvolvidos especialmente para as grandes exposições a bolsas e outros acessórios criados por designers famosos. Trata-se de uma fonte de renda manjada e bem explorada não só pelos museus de fora. Os três pontos-de-venda do Museu de Arte Moderna (MAM), localizados em sua sede e nos shoppings Iguatemi e Villa-Lobos, arrecadam, juntos, cerca de 11% de sua receita anual. Ali é possível encontrar produtos de terceiros, além de 35 artigos com o selo da grife do museu, como chaveiros, canecas, bolas de golfe... Em dezembro, o Masp finalmente tirou a licença para lançar artigos com a própria marca. "Estamos negociando parcerias com possíveis fabricantes", diz Julio Neves. Atualmente, a lojinha do Masp vende catálogos, livros, camisetas, objetos de decoração e cartões- postais – boa parte dos artigos é deixada lá sob consignação por seus produtores. O museu considera as vendas "irrisórias" e por isso não informa quanto o negócio fatura.
4. Criar uma sociedade de amigos do museu
AP Photo/Gregory Bull
MoMA, em Nova York: o museu ganhou 100 000 novos "amigos" no ano passado
5. Tornar as exposições mais atrativas
Fernando Moraes
Paredes coloridas e textos explicativos: iniciativa do novo curador
"Ainda não joguei a toalha"
Cumprindo seu sétimo mandato consecutivo como presidente do Masp, o arquiteto Julio Neves não enfrentou oposição nas seis últimas eleições. Ele diz que continua à frente do museu "por amor à causa"
Como a crise financeira do Masp se agravou tanto?
A situação sempre foi complicada. O problema é que o corte da energia elétrica gerou uma visibilidade muito grande das nossas dificuldades.
Por que as contas de luz não vinham sendo pagas?
Até dez anos atrás a Eletropaulo nos fornecia energia gratuitamente. Aí ela foi privatizada e o apoio acabou. Para piorar, o valor da conta mais que dobrou depois que colocamos ar-condicionado no prédio todo. É a nossa maior despesa, cerca de 1,2 milhão de reais por ano.
Os conselheiros não têm condições de levantar mais patrocínios?
Como você não pode remunerar os colaboradores, tem de se adequar ao tempo deles. A situação do Masp é atípica. Participei, em dezembro, de um seminário no Vaticano ao lado de representantes dos quinze maiores museus do mundo. Só eu não recebia salário.
Quanto o senhor acha que deveria receber?
Nesse caso não seria eu a ocupar o cargo. O Masp precisa ter à sua frente um executivo do nível de um diretor de banco para encontrar um modelo de auto-sustentação.
Então por que o senhor sempre se candidata ao cargo?
Por amor à causa. O entusiasmo é diretamente proporcional a esse sentimento. Continuo entusiasmado, ainda não joguei a toalha.