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MEU ESTILO

Zé do Caixão

08.11.2007

Ator e cineasta, 71 anos

 

Por Alvaro Leme

Mario Rodrigues

Zé do Caixão

Depois de 44 anos de muito susto, sangue de mentirinha e coisas parecidas, Zé do Caixão vai morrer. Isso mesmo, o mestre do terror brasileiro, vivido pelo ator e cineasta paulistano José Mojica Marins, passará desta para melhor (ou pior, sabe-se lá). Sua derradeira aparição será no filme Encarnação do Demônio, previsto para estrear em 13 de março de 2008, quando ele completa 72 anos. Enquanto não chega a hora de ver o Zé bater a caçoleta, os fãs podem curtir a retrospectiva de seus cinqüenta anos de carreira, com 41 produções de que participou, a partir deste sábado (10), no Centro Cultural Banco do Brasil.  

Seu personagem tem quase meio século. Você ainda veste o figurino do Zé do Caixão com o mesmo entusiasmo?
Dá uma desanimada, sim. Sou muito calorento. Quando tenho de fazer show de rock, que costuma ser em local abafado, é um sufoco. Esta roupa (foto) é do Alexandre Herchcovitch. Vou pedir a ele uma mais fresca.  

O que você faz nesses shows?
Às vezes sou DJ, outras converso com a platéia ou faço uma performance. Se for show de metal pesado, falo que o diabo está ultrapassado. Digo que sou muito mais poderoso. Eles vibram, ajoelham, pedem que eu rogue pragas.  

É verdade que você tem pacto com o demônio?
Muita, muita gente mesmo acha isso. Mas não. O Mojica é católico. Agora, o Zé do Caixão é ateu.  

Quanto cobra de cachê?
Em São Paulo, 4.000 reais. Em outros estados, até 7.000. É o que peço para dar palestras sobre cinema.  

Está casado?
Há quase cinco anos vivo com a Leni Alves, que aliás participa do meu próximo filme. Rodei uma cena em que ela é soterrada por 3.000 baratas. E eram de verdade! Ela tem 25 anos, mas a diferença de idade não atrapalha. É minha nona esposa. Tenho sete filhos e onze netos.  

Existe uma história de que, em todo filme seu, morre alguém da equipe. É lenda?
Bem, em Encarnação... foi o Jece Valadão, né? Essa história começou em 1954, quando a atriz de um filme que nunca terminei, Sentença de Deus, morreu afogada. A substituta também, logo depois, de tuberculose. E ainda uma terceira perdeu a perna num acidente. Numa outra fita, foi um técnico. Faltavam quatro dias para terminarmos de filmar e ele perguntou se ninguém ia morrer. "Vai. Você!", brinquei. Uma hora depois, ele foi para o hospital com ataque cardíaco e não resistiu. Misturou remédios com bebida.  

Você já se candidatou a deputado federal e a vereador. A política no Brasil é trash?
É muito corrupta, isso sim. Meu sonho era montar uma escola de artes gratuita, para crianças de rua. Em 1982, candidatei-me a deputado por admiração a Jânio Quadros. Saí pelo PTB, mas tive menos de 2 000 votos. Em 2004, pelo PTC, consegui 6 500.  

Quantos cigarros fuma por dia?
Dois maços e meio. Em filmagem, cinco.  

Costuma ir ao médico?
Agora faço check-up anual. Mas custei a aceitar. Há quinze anos fui ao médico, que me mostrou a chapa dos meus pulmões. Eram só trevas. Negros, negros, negros. Era o mês de setembro e ele falou que, se não parasse de fumar, morreria antes do Natal. Continuo até hoje.  

O Zé do Caixão tem medo da morte?
Não, mas o Mojica tem.  

Quantos anos ficou sem cortar as unhas?
Da mão direita, 21. Cortei no programa Viva a Noite, do Gugu Liberato, porque estavam atrofiando. As da esquerda, mantive por 38 anos. Dei uma ao Zé Ramalho, outra ao Faustão. E leiloei uma delas por 50.000 reais, acredita? Doei para crianças carentes.  

A unha atrapalhava na hora de ir ao banheiro?
Incomodava, mas me adaptei. Usava as costas dos dedos. Era complicado mesmo para discar os números no telefone.  

Alguma coisa assusta o Zé do Caixão?
A única coisa que me mete medo é o dia seguinte. Assusta muito pensar que posso sair de casa e não voltar.  

Não sai de casa sem...
Rezar.


 
 
 
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