DECORAÇÃO
Em casa de ferreiro...
06.11.2007
...nem sempre o espeto é de pau. Pelo menos no caso dos arquitetos paulistanos. Seis desses profissionais abrem as portas de sua casa para mostrar de que jeito projetaram o próprio espaço
Por Milene Saddi Chaves
Declaração de amor
Fernando Moraes
Quem entra nos domínios de João Armentano logo volta sua atenção para um enorme tapete de 8 metros de comprimento por 4 metros de largura. Num felpudo fundo preto, grandes letras brancas formam a frase escrita em italiano: senza di te io non sono nessuno (sem você eu não sou ninguém). Originalmente feito para o Estúdio do Marido Apaixonado, seu espaço na Casa Cor 2007, o tapete é uma declaração de amor à mulher, Cris, com quem está casado há 25 anos. Terminada a mostra de decoração, a peça foi parar na ampla sala da casa do arquiteto apaixonado. Desenhado por ele em 1995, o imóvel de 600 metros quadrados e quatro suítes fica em um condomínio em frente ao Parque do Ibirapuera. Mas não pense que, por ser o expert, a casa leva sua assinatura em cada canto. Cris e os três filhos também têm vez – daí o piano de cauda, as velas artesanais e alguns móveis antigos que decoram o living e a varanda. "Se eu fosse solteiro, moraria num loft e colocaria apenas uma cadeira com um superdesign na sala", diz. "Mas, como a casa é de todos da família, não posso tratá-los como hóspedes."
Luz contra o desânimo
Fernando Moraes
Beatriz Dutra precisou percorrer 26 quilômetros na Rodovia Raposo Tavares para encontrar, na Granja Viana, o terreno em que construiria a casa de seus sonhos. Projetou, em 1989, um imóvel com 280 metros quadrados de área construída (mais 140 metros quadrados de área externa, com direito a piscina, churrasqueira e forno de pizza). A casa fica dentro de um condomínio fechado com ruas monitoradas. "Vim para cá em busca de segurança", conta ela, que deixa as portas sempre destrancadas. Do lado de dentro, o branco das paredes e do piso de solarium polido (revestimento cimentado) é banhado pela enorme quantidade de luz que entra pelo fundo envidraçado da sala. "É preciso colocar óculos escuros para ficar aqui dentro", brinca a arquiteta, que diz usar a abundância de luz natural como antídoto contra qualquer sombra de desânimo. O que justifica, então, as paredes e o carpete pretos de sua suíte de 80 metros quadrados? "As janelas não levam venezianas, apenas cortinas leves. Acordo assim que os primeiros raios de sol entram no quarto."
Só tons pastel
Mario Rodrigues
Quando viu pela primeira vez a fachada do casarão sustentado por pilotis no sopé de um dos muitos morros do Pacaembu, Arthur Casas pensou rapidamente em duas coisas: que o projeto inspirado na escola alemã Bauhaus só poderia ser de Villanova Artigas, um dos mais importantes arquitetos brasileiros; e que aquele seria o seu próximo endereço. Estava certo. O novo proprietário não se mudou sem antes fazer uma pequena alteração no projeto original, de 1942. Hoje, a casa tem elevador, mas compensa subir os trinta antigos degraus para ver, do alto, a sala com seus 17 metros de janela, por onde entra a luz que evidencia as cores neutras da decoração. O cáqui está por toda parte – do couro da poltrona Charles Eames à madeira dos tacos que revestem o piso. Nem as obras de arte escapam à regra. Os tons pastel predominam no grande afresco de José Spaniol (na foto, ao fundo). "Sou contra cor", explica. "O dia já é bastante colorido." Quando o sol se põe, toda a iluminação é controlada por um painel computadorizado. Dependendo de uma das dez ocasiões previamente programadas – jantar com a esposa e a filha, ver televisão, receber os amigos... –, as dezenove lâmpadas da sala se acendem em gradações diferentes.
Herança dos avós
Fernando Moraes
Lá pela metade de 2008, o Jardim Europa ganhará uma moderna construção de 600 metros quadrados, com área de serviço no subsolo e sem economia de linhas retas ou de concreto aparente. A dona do projeto, Carol Maluhy, vai morar ali. Mas, enquanto isso não acontece, a arquiteta de badaladas lojas de moda usa a decoração para deixar com cara de seu o imóvel que aluga no Jardim Paulistano. Única neta, ela herdou dos avós as peças das décadas de 20 a 70 que são as estrelas da ambientação. A geladeira verde-água da marca Frigidaire é apenas uma delas. Como ainda funciona, o eletrodoméstico (um tantinho barulhento, é verdade) faz as vezes de bar, guardando bebidas geladas em plena sala de visitas. Espelho, lustre, abajur e enfeites de Murano são outros objetos espalhados pelos 300 metros quadrados da casa. Para compensar o ar vintage, Carol distribuiu por toda a sala suas dezesseis telas de arte contemporânea. Entre elas há Marepe, Ivald Granato, Regina Silveira e Wesley Duke Lee.
Abaixo o estilo clean
Mario Rodrigues
Ela já projetou mansões de 1 500 metros quadrados e decorou iates de 110 pés. É nos 100 metros quadrados de seu loft, no bairro de Pinheiros, entretanto, que a arquiteta Clarissa Strauss encontra o luxo de que precisa. Depois de quatro meses de intensa reforma, o apartamento de hoje pouco lembra a sua primeira versão, que fazia o estilo clean asséptico. "Quando o comprei, há sete anos, dei um verdadeiro banho de tinta branca, do teto ao piso de pedra mineira", conta. Repaginado, o loft construído há dezoito anos – um dos primeiros do gênero em São Paulo – ganhou jeito de casa. O chão recebeu tábuas de madeira de demolição e a cozinha, bancadas de limestone, a pedra do momento, de textura ultralisa, mas opaca. Imponentes cortinas de veludo e cadeiras de couro de avestruz bordô, além de uma poltrona Vermelho, assinada pelos irmãos Campana, completam a decoração.
Zoológico em casa
Mario Rodrigues
Derrube três paredes de um apartamento de 100 metros quadrados e, feito mágica, ele vai parecer muito maior. Escolha um prédio em uma rua onde há engarrafamentos, mas more nos fundos e tenha a vista de um bairro residencial e arborizado. São essas as duas pequenas, porém essenciais, medidas que fazem da residência de Dante Della Manna um achado no Jardim Paulistano. Em 1999, quando se mudou para o imóvel, que já era de sua família, o arquiteto não pensou duas vezes antes de integrar à sala um dos dois quartos e a cozinha. "Isto aqui era um muquifo", lembra. Separado, Della Manna moraria sozinho não fossem o tucano, o tamanduá, a seriema e o jacaré que vivem por ali. São cerca de cinqüenta bichos de madeira, que fazem parte de uma coleção iniciada há seis anos, para agradar à filha. A caça continua. Seja numa peregrinação pela cidade de Tiradentes, em Minas Gerais, seja em uma parada num posto de gasolina de beira de estrada, para este membro do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, o que vale é encontrar – e preservar – bons espécimes do artesanato brasileiro.