O que São Paulo precisa fazer nos próximos sete anos para receber bem a Copa de 2014. Na área de transporte, é necessário expandir as linhas de metrô e trem
Mal o Brasil foi anunciado como sede da Copa do Mundo de 2014, em cerimônia ocorrida em Zurique (Suíça) no dia 30 de outubro, começou por aqui uma disputada partida política entre as cidades que desejam abrigar jogos do campeonato. A Fifa só vai dar o apito final no segundo semestre do ano que vem, mas já são tidas como certas as participações de São Paulo, que vai abrir o Mundial, e do Rio de Janeiro, onde ocorrerá a decisão. "Esse é o calendário lógico", afirma o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira. Liderado pelo presidente da São Paulo Turismo (SPTuris), Caio Luiz de Carvalho, o Comitê da Candidatura de São Paulo à Copa preparou um dossiê de 184 páginas com informações – todas positivas, claro – sobre a cidade, na medida para impressionar os chefões da Fifa. E ele tem certeza de que jogaremos bonito. "Para nós, que recebemos 90 000 eventos por ano, organizar a Copa não será nenhum bicho-de-sete-cabeças", diz.
Montagem com fotos se Mario Rodrigues e AFP/Patrick Hertzog
Durante o mês da competição, pelo menos 3 000 jornalistas e 600 000 turistas deverão passar pela cidade – 180 000 deles, estrangeiros. Em um cálculo conservador, isso traria uma receita de 1,5 bilhão de reais à cidade. Mas, para não pisar na bola, principalmente diante dos visitantes internacionais – que ficaram acostumados a campeonatos impecáveis, seguros e com tecnologia de ponta –, é preciso começar, desde já, a pensar em soluções para os nossos maiores problemas. Nas páginas a seguir, Veja São Paulo mostra quais são os desafios mais urgentes desse planejamento, que deve contar com investimento maciço da iniciativa privada. De acordo com o governador José Serra, o estado não vai destinar recursos para a construção de estádios nem para a publicidade do evento. "Vamos fazer a nossa parte dando segurança e transporte."
Projeto Ruy Ohtake
O projeto de reforma do Estádio do Morumbi, feito por Ruy Ohtake, prevê uma cobertura de policarbonato nas arquibancadas (foto maior). Na área verde da foto ao lado seria construído um estacionamento subterrâneo com 4 800 vagas. A superfície ganharia uma praça
Estádio
Situação atual: Apesar de ter passado por reformas recentes – há uma década suas estruturas de concreto foram reforçadas e em 2000 as arquibancadas ganharam assentos numerados –, o Morumbi ainda está longe de atender às exigências da Fifa. Levantamento realizado pelo Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco) mostra que o público sentado próximo da grade metálica que divide as torcidas tem a visibilidade prejudicada. Outros problemas são a precária estrutura para a imprensa, a disparidade de qualidade dos vestiários (o utilizado pelo São Paulo é superequipado, enquanto o dos times visitantes não tem sequer armário) e a falta de um estacionamento aberto ao público – o que existe é pequeno e restrito à diretoria.
O que precisa ser feito: O São Paulo Futebol Clube encomendou ao arquiteto Ruy Ohtake uma proposta de intervenção que não alterasse a plástica do estádio, desenhado por Vilanova Artigas na década de 50. Ele elaborou um projeto cuja execução custará entre 10 e 15 milhões de reais e poderá ser realizada em dois anos – deve, contudo, levar mais tempo em obras, já que não haverá interrupção no calendário de jogos. Por dentro serão feitas mudanças especialmente na área de imprensa, com novos estúdios para TV e internet, e na estrutura de restaurantes e vestiários. A Fifa exige, por exemplo, que as duas seleções entrem em campo lado a lado, pelo mesmo túnel, e no Morumbi cada time tem acesso por uma rampa separada. Do lado de fora, serão erguidas quatro colunas metálicas de 39 metros de altura e diâmetro de 3,5 metros. Elas sustentarão duas coberturas enormes (170 metros de comprimento cada uma) e outras duas menores (vermelhas) feitas de policarbonato, um plástico transparente que deixa passar a claridade. "Já temos conversas marcadas com interessados em patrocinar a reforma", afirma Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo. De acordo com a Fifa, um estádio com capacidade superior a 45 000 pessoas (o Morumbi tem capacidade para 62 000) deve dispor de 10 000 vagas para carros. Para atender a essa exigência, há duas possibilidades. A menos custosa seria aproveitar as vagas de estacionamentos de shoppings, supermercados e hotéis em um raio de 5 quilômetros do Morumbi, com transporte gratuito para os usuários. A outra é a construção do estacionamento projetado por Ohtake para 4 800 carros na Praça Roberto Gomes Pedrosa. Com quatro lances subterrâneos, ele encobriria parte das avenidas Giovanni Gronchi e João Jorge Saad e transformaria numa praça a região que compreende a rotatória e os terrenos desapropriados a sua volta.
Segurança
Paulo Pinto/AE
Tropa de choque em frente ao Parque Antártica: não haverá aumento do efetivo
Situação atual: Não faltam efetivos nas polícias civil e militar de São Paulo. Somadas, as duas corporações reúnem 130 000 policiais. Desses, 94 000 são da PM. Outros 6 000 integram a Guarda Civil Metropolitana. Há, inclusive, 665 policiais militares especializados no combate à violência de torcedores, uma das prioridades para a Fifa. Eles pertencem ao 2º Batalhão de Choque. "A experiência deles nesse tipo de trabalho é tão respeitada que na Copa de 2002 foram convidados pelo governo japonês para trocar know-how", afirma o secretário de Segurança Pública, Ronaldo Bretas Marzagão. Embora São Paulo tenha altos níveis de criminalidade – no último trimestre foram registrados na capital 637 homicídios e 84 186 ocorrências de furto e roubo –, esses índices vêm sendo reduzidos sistematicamente. A polícia credita parte desse sucesso à informatização de seu sistema e à criação, no início deste ano, do Centro Integrado de Inteligência, que congrega as duas forças policiais do estado e troca informações com a Polícia Federal e as Forças Armadas. "Graças a esse centro, já prendemos 243 pessoas ligadas a facções criminosas", diz Marzagão.
Eckehard Schulz/AP
Leipzig, na Alemanha: revista em um dos jogos de 2006
O que precisa ser feito: Investir mais em tecnologia e em inteligência. O governo não pretende aumentar o efetivo até 2014, mas sim otimizá-lo. Multiplicar o número de câmeras nas ruas é uma das medidas que ajudam na prevenção de crimes e na identificação de seus autores. De acordo com levantamento da empresa RCI Consultoria de Segurança, há 800 000 câmeras espalhadas em São Paulo, contra 2,5 milhões em Nova York e 2 milhões em Londres. Esse número até que é razoável. A imensa maioria das câmeras, entretanto, pertence a particulares e está fora do alcance da polícia. Há um projeto em andamento da Secretaria de Segurança Pública que prevê a instalação até o fim de 2008 de outras 100, algumas no entorno do Morumbi. Atualmente, a secretaria mantém um convênio com a Guarda Civil Metropolitana, que remete imagens captadas por suas 35 (isso mesmo, 35!) câmeras à polícia.
Durante a Copa, a Delegacia de Atendimento ao Turista (Deatur) deverá organizar rondas hoteleiras para evitar furtos. O aumento no fluxo de turistas é um poderoso chamariz para a bandidagem. A África do Sul, que também enfrenta altos índices de criminalidade – quarenta assassinatos por 100 000 habitantes, contra 27 no Brasil e cinco na média mundial –, começou cedo sua preparação para a Copa de 2010. O país elevou em 600% os gastos com segurança e duplicou seu contingente policial. Para identificar baderneiros em seus estádios, a Alemanha, que sediou a última Copa, exigiu o número de documento de identidade dos compradores de ingresso. Contratou ainda 300 policiais de países com tradição em quebra-paus futebolísticos, como Inglaterra e Holanda, para eles reconhecerem "seus" hooligans no meio da multidão. As folgas e as férias de seus 200 000 policiais foram suspensas durante os trinta dias da competição.
Meio ambiente
Situação atual: Os carros são os maiores vilões do ar paulistano. Com a implementação, em 1986, do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), rigoroso ao regulamentar a produção dos novos carros, os níveis de emissão de poluentes da cidade vêm sendo reduzidos gradativamente. "Os poluentes básicos emitidos pelos escapamentos hoje são 95% menores que há vinte anos", afirma Olímpio de Melo Alvares Júnior, engenheiro da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). Mas a situação ainda não é confortável. Em dias quentes, é comum que o índice do gás ozônio esteja acima do aceitável pela Organização Mundial de Saúde. No inverno, o paulistano sofre mais com as partículas inaláveis, nocivo resíduo emitido principalmente por motores a diesel.
O que deve ser feito: A inspeção veicular obrigatória anual, regulamentada em 1993, precisa sair do papel. "Se os carros velhos não atenderem ao padrão de emissão, devem passar pela oficina. Os veículos têm de estar regulados", diz Alvares. Campanhas de conscientização que incentivem o uso mínimo de transportes motorizados – com preferência pelos públicos – também serão priorizadas. A exigência de instalar, em caminhões e ônibus movidos a diesel, um filtro para reduzir (em até 95%) a emissão de partículas inaláveis, como já ocorre no Chile, é outra medida que aliviaria um bocado a situação. O problema é o alto custo do equipamento: cerca de 6 000 dólares. "Seria preciso inventar mecanismos econômicos, como abatimento de impostos, para viabilizar a instalação desses filtros", acredita o engenheiro. Já está em teste (e o primeiro deve começar a operar em dezembro) o ônibus movido a etanol, que reduz em até 90% a emissão de poluentes. O Brasil será o primeiro país da América a contar com tal veículo – participam do projeto Estocolmo (Suécia), Roterdã (Holanda), Dublin (Irlanda) e outras cinco cidades. O Comitê da Candidatura de São Paulo à Copa prevê o plantio de 50 000 mudas de árvores nativas da Mata Atlântica como medida de neutralização do carbono produzido pelo evento – o cálculo levou em conta o número de torcedores que se deslocarão ao Morumbi.
Trânsito
Antonio Gaudério/Folha Imagem
Congestionamento na 23 de Maio: 1,25 milhão de novos carros até 2014
Situação atual: Enfrentar congestionamentos de 85 quilômetros pela manhã e 120 quilômetros à tarde é um dos piores pesadelos dos paulistanos. Com uma frota de 5,6 milhões de veículos, a cidade sofre muito com os engarrafamentos. Os 16 000 quilômetros de ruas paulistanas são patrulhados pelo contingente de 2 000 marronzinhos da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Em eventos de grande aglomeração de público, como o Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, que recebe 120 000 pessoas em três dias, a companhia monta operações especiais, estabelecendo sentido único em trechos de avenidas e deslocando mais agentes de trânsito para lá.
O que precisa ser feito: Se o crescimento da frota continuar na proporção atual, em 2014 haverá 1,25 milhão de novos carros nas ruas. Ou seja: congestionamentos ainda maiores devem vir por aí. "Temos um trabalho constante de monitoramento do trânsito e agregaremos soluções compatíveis com o tamanho do problema", diz o presidente da CET, Roberto Scaringella. Para atenuar a gravidade da situação, o jeito é investir em tecnologia. Aumentar as câmeras de monitoramento – hoje são 133 – e os semáforos inteligentes, além de triplicar o número de marronzinhos. "Também esperamos que, com o avanço dos meios de comunicação, possamos interagir diretamente com o motorista", prevê Scaringella. Na região do Estádio do Morumbi, duas obras devem aliviar um pouco o caótico trânsito. Orçada em 13 milhões de reais e prevista para ficar pronta até o fim do ano que vem, uma avenida de 2,2 quilômetros de extensão ligará a saída da Avenida João Dias até a Rua Doutor Flávio Américo Maurano, unindo trechos já existentes. Na mesma região, a imponente Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira, com inauguração planejada para março, também deve ajudar a desafogar o trânsito.
Telecomunicações
Michaela Rehle/Reuters
Estúdio de TV dentro do estádio em Munique: 25 ângulos para ver o jogo
Situação atual: A cidade possui 4 000 quilômetros de cabos de fibras ópticas no subsolo, que correm paralelamente aos fios de telefone. O comprimento equivale a dez vezes a distância entre Rio de Janeiro e São Paulo. Não é muito inferior aos 5 600 quilômetros que há na Alemanha. Mas, apesar da boa infra-estrutura, apenas 4 000 domicílios nos Jardins e outros 500 no Morumbi têm acesso a essa tecnologia, em experimentação pelas operadoras de telefonia. É quase nada perto dos 8 milhões de japoneses que usam linhas como essas em casa. Cada unidade de fibra óptica, além de transmitir imagens e sons de televisão, permite acesso à internet trinta vezes mais rápido do que a linha de banda larga comum. Possibilita, com isso, a esperada interatividade da TV digital, que fará sua estréia em canais abertos em São Paulo em 2 de dezembro. A idéia é que o espectador consiga gravar atrações, fazer compras e montar a própria programação – embora ainda não esteja estabelecido, por lei, o que será permitido, nem mesmo como será a caixinha de distribuição de canais, chamada setup box. "Há interesse e capital privado, mas a regulamentação é muito lenta", diz Ethevaldo Siqueira, especialista em telecomunicações.
O que precisa ser feito: Acelerar o processo de convergência da TV analógica para a TV digital. Na seqüência dessa tecnologia virá a televisão pela internet, também chamada de IP TV. O Brasil está atrasado nessa corrida por causa de impasses legais e de disputas comerciais. As transmissões internacionais em alta definição foram feitas pela primeira vez na Copa do Mundo de 2002, com sede no Japão e na Coréia do Sul. Cerca de 3 milhões de espectadores do mundo inteiro surpreenderam-se, a cada partida, com o efeito do som surround, em que se ouve o barulho da bola batendo na trave, e com a imagem viva e precisa dos lances. Na Copa seguinte, a da Alemanha, a TV digital de alta definição chegou em caráter experimental ao Brasil, para pouquíssimos assinantes de TV paga que possuíam um aparelho de plasma ou LCD compatível. A experiência impressionou. Com um esquema de 25 câmeras espalhadas pelo estádio, foram mostrados diversos ângulos dos jogos. Bolas especiais, que tinham um chip embutido, orientavam as câmeras-robôs colocadas nos pontos mais elevados dos estádios. Mais de 1 400 centrais de telefonia e 5 000 computadores conectavam os doze estádios, os escritórios da Fifa e os centros de mídia, onde jornalistas do mundo todo montaram seus QGs na Alemanha. Uma lição de tecnologia.
Transporte
Mario Rodrigues
A fábrica da multinacional Alstom, na Lapa, produz doze trens novos: renovação da frota
Situação atual: São Paulo tem 15 000 ônibus urbanos. É a maior frota do planeta – três vezes maior que a de Nova York e duas vezes a de Londres. Eles conduzem 7,6 milhões de paulistanos por dia. De acordo com a última pesquisa realizada pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), metade dos passageiros desaprova o serviço prestado pelos ônibus municipais – a velocidade média nos corredores é de inacreditáveis 17 quilômetros por hora. Os 119 trens metropolitanos, também insuficientes e alguns em estado deplorável, levam e trazem 1,6 milhão de pessoas diariamente. O metrô, transporte público mais bem avaliado pelo paulistano (excelente para 93% dos usuários), carrega 3 milhões de passageiros por dia, apesar dos seus vergonhosos 61,3 quilômetros de trilhos – Paris tem 199 quilômetros, Londres conta com 408 e a Cidade do México dispõe de 202.
Tuca Vieira/Folha Imagem
Metrô: promessa de 242 quilômetros de trilhos até 2010
O que precisa ser feito: Investir pesado na malha metroviária e modernizar, ampliar e integrar os sistemas de trens e ônibus existentes. O governo estadual promete concluir até 2010 a primeira fase de expansão do metrô. Isso significa que a malha metroviária passaria dos 61,3 quilômetros atuais para 242 quilômetros. Com uma rede quatro vezes maior, acredita-se que 5 milhões de pessoas usariam o sistema diariamente (2 milhões a mais que hoje). Como uma de suas estações estará a 1,2 quilômetro do Estádio do Morumbi, a conclusão da Linha 4, que ligará o centro à Vila Sônia, é a mais esperada. O secretário estadual dos Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, acredita, no entanto, que o pulo-do-gato para a cidade será a renovação dos trens da CPTM: 98 serão reformados e 99 adquiridos. Doze deles estão em produção na fábrica da multinacional Alstom, na Lapa, e devem estar efetivamente nos trilhos em 2009. Controlados por computadores, os vagões dispensarão condutores. As melhorias no Metrô e na CPTM vão custar 17 bilhões de reais aos cofres municipal (1 bilhão) e estadual (16 bilhões de reais). Duas outras importantes obras dependerão das parcerias público-privadas (PPPs). Uma delas é a implementação do veículo leve sobre trilhos (VLT), que deverá ligar o Aeroporto de Congonhas à Estação São Judas (da Linha 1 do Metrô) e, posteriormente, à Linha 5, que vai do Capão Redondo ao Largo 13, em Santo Amaro. A outra é a construção do Expresso Aeroporto, que liga Cumbica ao centro e já tem projetos de empresas interessadas.