Salários inflacionados, empregos de sobra e promoções aceleradas. O que mudou na vida dos profissionais ligados à construção civil numa cidade em que um prédio é lançado por dia
– Por que não compra também a companheirinha dele? – insinuou o vendedor, indicando a gatinha rajada de preto.
Dali a pouco eu estava no carro com um pacote de ração, vasilha higiênica, almofadinhas, os dois gatos numa caixa de papelão e o cartão de crédito estourado. Fui para casa. Os cães me perseguiram excitados enquanto eu fugia com os gatos para o meu escritório. Tranquei-me com eles. Um amigo apaixonado por felinos explicou:
– Eles precisam passar um tempo presos para se acostumar com a casa.
Forrei a janela do escritório com telas. Servi a ração. Em seguida, tratei de mudar o nome deles, dado pelo gatil. O dela não me lembro. Mas ele se chamava Cherry. Não achei adequado para um representante do sexo masculino. Troquei por Merlin e Shiva. Aí descobri que ele tossia. Sem parar. Pus a mão no focinho. Estava quente.
Voei para o veterinário. Minha intuição provou-se verdadeira. Merlin estava à beira da morte. Passou um mês internado. Eu ia visitá-lo, estava sempre preso numa gaiolinha. Não me reconhecia como dono. Shiva acostumou-se com o escritório e dormia no meio dos livros. Adorava ouvi-la ronronando ao meu lado no sofá, mordendo de leve a ponta dos meus dedos. Merlin voltou, mas não estava curado.
– Talvez seja uma doença crônica – informou o veterinário.
Um amigo indicou um especialista em gatos. Novo tratamento, com remédios em horários certos. Aos poucos, Merlin parou de tossir. E começou a demonstrar sua verdadeira personalidade, escalando mesa, estante, botando o focinho em tudo! Tão quietinho na vitrine, tão animado em casa!
O passo seguinte foi promover a integração. Coloquei Merlin e Shiva na sala, separados dos cães por uma porta-janela de vidro. Latidos. Os felinos lançaram olhares de desprezo. Dias depois, abri a porta, pronto para intervir. Os cães cheiraram. Os gatos ergueram o rabo, orgulhosos. Passei dias atento. Até que, numa noite chuvosa, não achei Merlin de jeito nenhum. Esquadrinhei a casa toda. Fiquei encharcado no jardim. "Ele fugiu!", concluí com dor no coração.
De manhã, a surpresa! Merlin e os três cães dormiam juntos, aquecendo-se mutuamente, como velhos amigos!
Agora, onde estou eles vão. Shiva, mais arisca, fica sempre por perto. Merlin deita-se aos meus pés. Sobe no meu colo enquanto escrevo. Definitivamente, estou perdidamente apaixonado. E sei que esse amor é para toda a vida!