Como é o dia-a-dia dos operadores de telemarketing da cidade, que a cada 140 ligações fecham três vendas.
Leo Feltran
A Almaviva, aberta há dois meses, no centro: 300 operadores em ação
– Sei. É telemarketing.
– O motivo de meu contato é apresentar-lhe o novo...
– Desculpe-me, não estou interessado.
– Mas o senhor é um cliente especial. Foi escolhido para receber o benefício...
– Já disse: não estou interessado.
– De qualquer forma, a empresa agradece sua atenção. Desejo ao senhor um ótimo dia.
Mario Rodrigues
A atendente Luciana de Souza: 270 seguros de vida por mês e grito de guerra cada vez que as metas são batidas
Mario Rodrigues
O operador Michel Carneiro: 3 reais de vale-refeição, o chamado "vale-coxinha"
– Tropa de elite, o que é que você faz? – grita o supervisor.
– Eu entro no contato para vender e nada mais – responde a galera.
Terminam a jornada ao som de Ivete Sangalo. Nesse ambiente momentaneamente descontraído, Luciana bate todo mês a meta de vender 270 seguros e abocanha um salário de 740 reais, o máximo pago pela empresa – o piso da categoria é de 530 reais. Nem todos alcançam o mesmo desempenho. Para realizarem três vendas por dia, os operadores ligam para 140 domicílios (ou escritórios). Conseguem falar com oitenta pessoas, das quais trinta escutam a proposta até o fim. "Um retorno de 2% a 10% das ligações é considerado positivo", afirma o diretor comercial da TMKT, Miguel Windt. É comum no setor premiar os melhores vendedores com brindes como bombons, malas de viagem, bicicletas e TVs. São benefícios que fazem brilhar os olhos de quem recebe 3 reais de vale-refeição, que eles apelidaram de vale-coxinha. "Você tem de escolher: ou compra o refrigerante ou o sanduíche", diz o operador Rogério Jofre, que trabalha em duas empresas e acostumou-se a levar marmita de casa para comer no intervalo entre os turnos.
Mario Rodrigues
Treinamento do professor Isaac Martins: a abolição do gerúndio entre suas principais lições
Mario Rodrigues
A técnica em meteorologia Patrícia Vieira: para despistar os operadores, ela inventa viagens exóticas
Para poupar os ouvidos desse tipo de vício de linguagem e outros blablablás, há paulistanos que fazem de tudo para fugir dos operadores de telemarketing (veja quadro ). Dona de três linhas telefônicas, a dentista Solange Furtado calcula que recebe de quatro a cinco ligações por dia. Ela decidiu parar de atender os chamados: quem faz o serviço é uma secretária eletrônica. A técnica em meteorologia Patrícia Vieira tem outra artimanha para evitá-los: gosta de inventar desculpas esdrúxulas em terceira pessoa. "Dona Patrícia está em missão humanitária no Tibete e não tem data para voltar", costuma dizer. "É tiro e queda", garante.
Calejados de tanto ouvir "não", os operadores de telemarketing não se intimidam diante de agressivos e engraçadinhos. Muitos recebem cantadas e chegam a se divertir com as respostas do outro lado da linha. Um comando é imprescindível nessas horas: o botão "mudo" do aparelho, que impede que a pessoa do outro lado ouça uma gargalhada ou um comentário maldoso. "Uma mulher simulou um chiado no telefone, disse que estava no meio de uma tempestade e simplesmente desligou", lembra a operadora Luciana Souza. "O jeito é rir." Outros mandam beijos. E há quem aproveite a chance para paquerar as atendentes. Quando recebem convites para sair, a ordem é ignorar.
Como qualquer setor que cresce em ritmo frenético em poucos anos – essa indústria quintuplicou de tamanho na última década no Brasil. –, o universo do telemarketing engloba empresas sérias e outras de fundo de quintal. Em 2005, a Associação Brasileira de Telesserviços, a Associação Brasileira das Relações Empresa-Cliente e a Associação Brasileira de Marketing Direto criaram uma espécie de cartilha da boa prestação de serviço, o chamado Programa Brasileiro de Auto-Regulamentação (Probare). Ao aderirem ao Probare, os call centres se comprometem a seguir algumas regras básicas e ganham um selo. A primeira, de etiqueta, refere-se aos horários em que as ligações podem ser feitas: das 9 às 21 horas. Outro avanço é respeitar a vontade do cliente. Se ele pede para não receber mais chamadas, seu nome deve ser excluído do cadastro (veja o quadro ).
Leo Feltran
Joice Pinho: depois de cinco anos, virou supervisora
O funil do
é o número de ligações que cada vendedor faz por dia
80
pessoas atendem ao telefone
30
escutam as propostas até o fim
3
vendas se concretizam
Um batalhão do outro lado da linha
operadores de telemarketing trabalham na cidade, um terço dos profissionais do país
50 000
fazem ligações para vender
200 000
atendem chamadas de clientes
45%
dos atendentes têm entre 18 e 24 anos
75%
dos postos de trabalho são ocupados por mulheres
50%
dos contratados não tiveram outra experiência profissional
530 reais
é o piso salarial para uma jornada de seis horas
2 a 6 minutos
é o tempo que leva cada ligação
Fontes: Associação Brasileira de Telesserviços e Sindicato dos Trabalhadores de Telemarketing
Treinados para manter a compostura
Se o cliente se nega a ouvir a conversa até o fim
Conduta-padrão: na réplica, o operador deve aproveitar para expor o produto. E procurar ressaltar que está oferecendo um produto de necessidade para o consumidor.
Se o cliente se exalta e diz grosserias
Conduta-padrão: mostrar calma e baixar o tom de voz. Jamais responder a uma ofensa nem comprar briga. Enquanto escuta a reclamação, repetir palavras como "entendo" e "compreendo". Desligar o telefone somente após concluir o caso e agradecer a ligação.
Se o cliente pede para não receber mais chamadas
Conduta-padrão: tentar agendar o contato para outro dia ou horário. Se a pessoa continuar irredutível, informar que excluirão o telefone da lista. No entanto, nem todas as empresas cumprem o que prometem, já que o mailing é caro: pagam de 15 a 20 centavos por nome.
Se o cliente assedia os operadores
Conduta-padrão: ignorar e insistir na finalização da venda, mudando de assunto, com frases diretas como: "Qual é o número de seu cartão de crédito?". Se houver insistência, informar gentilmente que será obrigado a desligar. Aceitar convites é proibido.
Se o cliente é solitário e quer apenas bater papo
Conduta-padrão: na sondagem de venda, faz parte ouvir as histórias do cliente, mas o tempo de conversa não deve ultrapassar seis minutos. Por isso, o operador deve ir direto ao assunto, perguntando, por exemplo: "O senhor já possui internet com banda larga?".
Se o cliente pede para falar com o supervisor
Conduta-padrão: evitar fazê-lo e, muitas vezes, repassar a ligação para um colega ao lado. Cada supervisor é responsável por zelar pelo bom atendimento de cerca de vinte operadores. Mas, em geral, ele não tem autonomia para resolver o problema.
Como alguns paulistanos
driblam o telemarketing
• Fingem ser a empregada ou uma criança, com direito a gírias e imitações, do tipo: "A patroa tá, não..."
• Dão uma desculpa aloprada como esta: "A dona da linha está em missão humanitária no Tibete e não tem data para voltar"
• Gaguejam ou fingem-se de surdos
• Engatam uma longa conversa, contando como se sentem sós e infelizes com aquele problema de coluna que têm há anos
• Assustam o atendente com perólas como: "Um novo cartão? Vem em boa hora, já que estou com outros três estourados e não tenho mais como fazer compras"
• Há os mais cruéis que pedem para o operador esperar um momentinho na linha e, nesse intervalo, terminam de ler As Mil e uma Noites. De tempos em tempos, voltam ao gancho e dizem: "Só mais um minutinho, tudo bem?"
Sim, eles têm um código de ética
Telemarketing ativo (que faz chamadas ao cliente)
• Os contatos só podem ser feitos de segunda a sexta, das 9h às 21h, e aos sábados, das 10h às 16h. É proibido ligar nos domingos e feriados.
• O atendente deve sempre informar o objetivo da ligação e as ofertas precisam ser claras, honestas e completas.
• Deve-se respeitar o direito do consumidor de, a qualquer momento, interromper a ligação.
• A central de relacionamento deve retirar do sistema o cadastro de consumidores que não queiram mais receber ofertas de seus produtos.
• É proibido vender a crianças e adolescentes.
Telemarketing receptivo (que recebe ligações do cliente)
• Os serviços de atendimento ao consumidor devem ter uma linha direta entre o cliente e o operador. Se houver menu eletrônico, a opção "fale com um de nossos atendentes" tem de estar sempre disponível.
• As opções de cancelamento de serviços e reclamações devem estar entre as primeiras alternativas do menu eletrônico.
• Todos os atendentes têm de ser capacitados para cancelar serviços ou registrar reclamações sempre que o cliente desejar.
• O consumidor deve explicar seu problema uma única vez e o funcionário tem de ter acesso a todo o histórico de reclamações do cliente.
• A ligação não pode ser interrompida enquanto se aguarda o atendimento.